A RESPEITO DE MINHA VIAGEM PELAS REGIÕES SUL E SUDESTE DO BRASIL

 


Não
foi uma viagem programada para sair daquela maneira.

De
início, era uma viagem para tratar de acomodações para minha filha que iria
submeter-se a avaliação para transplante pulmonar na Santa Casa de Porto
Alegre.

Mas
essa missão virou um suplício.

Normas
alteradas desde dezembro simplesmente não haviam sido repassadas aos médicos
que examinaram a paciente em
Porto Velho.

O
Tratamento Fora de Domicílio (TFD) que utiliza recursos alocados pelo Sistema
Único de Saúde (SUS) e Governo Estadual não cobria mais os custos para
transplante fora do estado. Esse procedimento passara a ser coordenado por uma
Central de Transplantes, instalada provisoriamente dentro do hospital de Base
de Porto Velho.


começou o transtorno. Com as informações que recebera antes da partida,
acreditei estar saindo atrasado, pois a perspectiva era que minha filha
partisse poucos dias após, o que me dava cerca de 4 dias para providenciar
acomodações para ela e uma acompanhante na gélida Porto Alegre.

Era
outono, ainda, mas o inverno já se avizinhava ameaçador com as temperaturas
caindo vertiginosamente por volta das cinco da tarde. E as terras gaúchas
começavam a ostentar os graus negativos na escala Celsius.

As
coisas ficavam cada vez mais complicadas. Submetido a temperaturas baixíssimas,
dentro de um conjugado de cerca de nove metros quadrados, sentindo a impotência
para resolver as dificuldades impostas pelas mudanças nas regras do tratamento,
era difícil resistir à depressão que se avizinhava.

Mudei
de cidade, de estado, de região… cerquei-me de parentes e resisti à tentação
de voltar de imediato.

Conversei
muito, busquei ajuda pela internet, estive na Secretaria de Saúde do RS, na
Coordenação de Transplantes do Hospital Dom Aloísio Scherer, no Complexo
Hospitalar da Santa Casa, sempre recebendo a informação que ainda demandava
algum tempo. Ninguém, contudo, precisava-me qual seria esse “tempo”. Falavam
algo em torno de “dias” e não de meses, como acabou ocorrendo.

Retornei
a Porto Velho 66 dias após minha partida sem conseguir remover sequer minha
filha daqui.

Ao
chegar, de imediato, recebi o documento que tanto ansiara em Porto Alegre. A
solicitação da Central de Transplantes para que Porto Velho autorizasse marcar
a consulta para avaliação. Avaliação apenas. Mas era isso que eu desejara de
início. Só que a tal consulta seria marcada para 40 ou 50 dias após ser
autorizada. Agenda cheia, dissera-me a Coordenadora de Transplantes de Porto
Alegre.

Mesmo
após completar toda uma bateria exaustiva de exames solicitada pelo hospital
gaúcho, minha filha ainda seria submetida a uma “avaliação”, haja vista que os
médicos nada concluíram através dos laudos remetidos.

Optamos,
então pelo Instituto do Coração de São Paulo (INCOR), onde já havia uma
consulta agendada para 02/09/2009.

Mesmo
porque, apenas a avaliação poderia ser realizada em Porto Alegre. O
transplante, segundo afirmavam, dependia ainda de alguns entraves burocráticos entre
os governos rondoniense e gaúcho (que não respondera às solicitações da SESAU-RO,
quanto ao pacto para transferência de verba do SUS). Assim, teríamos que buscar
outra alternativa, como, por exemplo, passar a residir definitivamente na
capital gaúcha, ou outro centro para completar o tratamento.

 

Surgem-me,
então, as seguintes conclusões:

1 –
Como os transplantes são obrigatoriamente coordenados pelo Ministério da Saúde,
que controla a fila única nacional, não existe alternativa legal para aquele
tratamento;

2 –
O Brasil é, temidamente, a pátria da burocracia. Enquanto se busca derrubar
tais entraves, muitos pacientes acabam perecendo na tentativa infrutífera de –
APENAS – entrar na fila do transplante;

3 –
Burlar o sistema é coisa que não admitimos em nossa família, mesmo quando ele
“opera” contra nossa saúde ou de nossos familiares. Assim, submetemos-nos a
todo tipo de humilhação de funcionários públicos, ou não, na tentativa de
salvar a vida de qualquer familiar;

4 –
Deve-se riscar alguns verbos do dicionário se queremos ter acesso aos serviços
do Sistema Único de Saúde (Único???): Desistir, Deprimir, Cansar, Desanimar…

 

Finalmente,
essa viagem trouxe-me a mais feliz das conclusões.

Por
onde passei, sempre questionaram-me a respeito de Rondônia, a terra, a
população, os costumes, tradições, etc…

A
resposta, sempre foi a mesma: Em relação á terra, julgo que Rondônia deve ser a
melhor para se viver. E justifiquei, rapidamente. Em todas as plagas por onde
andei raramente encontrei um rondoniense. Isso inclui todas as outras viagens
que fiz pelo Brasil. E, diga-se de passagem, das 27 unidades da Federação, já
passei por 24. Nessa última viagem, por exemplo, só encontrei um rondoniense,
meu afilhado, que cursa Direito em uma faculdade gaúcha. Mesmo assim, por ser
filho de gaúchos migrantes, que hoje residem em Porto Velho e que incentivaram-no
com um emprego em Porto
Alegre, do qual poderá trilhar auspicioso caminho na
profissão escolhida. Portanto, uma volta à terra dos ancestrais, carregada de
saudades da nossa Rondônia.

E
aqui em Rondônia?

Ora…
estamos passando por uma fase parecida à que Rio e Sampa atravessaram no século
passado, quando os nordestinos migravam para as capitais sudestinas, em busca
de riqueza (ou sobrevivência).

Hoje,
alastram-se pelas terras rondonienses colônias de migrantes, principalmente
sulistas, que após derrubarem seu ouro esmeralda, qual gafanhotos, deslocam-se
para a próxima região a ser devastada.

Aqui,
sim, é terra de valor. Acolhedora. Bênção e promessa divina.

Existe,
sim, uma diferença gritante entre os amazônidas e os nordestinos ou sulistas.

Embora
todos sejam brasileiros, os nordestinos sempre foram “preparados” para a
migração, enquanto os amazônidas nunca tiveram essa intenção por, simplesmente,
não precisarem. Aqui é terra de fartura. Em tudo e de tudo. Já os sulistas
mostram-se como os ascendentes da península ibérica, que devastaram todo seu
território. Agora buscam aqui mais um local a ser conquistado – e devastado.

 

E
olhando do alto, da escotilha do avião, alarmo-me cada vez mais. Pois cada vez
que olho, vejo a terra sendo desnudada, perdendo seu manto verde protetor. Lavoura?
Pecuária? Não sei ao certo precisar, mas classifico como “loucura”. Insanidade,
sim, de personagens com forma humana, mas que na realidade não tem sentimentos
que os humanizem.

Rondônia
está – como Mato Grosso, ficando nua.

 

E
aqui vejo a pilhéria. Enquanto os órgãos de defesa ambiental mandam seus
agentes perseguirem os meninos que pescam mandim no beiradão, deixam os grandes
devastadores agirem livremente. Esquivam-se em algumas multas deixadas à ermo,
sabedores que não serão pagas. Quando muito, provocam risadas nos “apenados”.

 

Tenho
dito!

 

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