Esta é a história de minha filha Aline. Uma moça corajosa, que enfrenta um problema de saúde considerado gravíssimo pela classe médica, mas que continua de cabeça erguida, lutando com destemor e, principalmente, mantendo a fé no Excelso Criador para continuar sua jornada neste nosso mundo.
O texto é de autoria dela mesma.

SEMPRE FUI UMA
PESSOA FELIZ

 

 

            Sempre
fui uma pessoa feliz. Quando criança, adorava andar descalça e brincar na rua
com minhas amigas. Passava o dia inteiro brincando. Na escola, participava de
tudo, Grêmio Estudantil, desfilava, praticava todo tipo de esporte, futebol,
vôlei, fazia parte do time de handebol da escola (caía mais que jogava). Na
sala de aula, fazia parte da famosa “turma do fundão”. Todos na escola me
conheciam. Eu era uma espécie de “agitadora”. Onde tinha bagunça, lá estava a
Aline. Mas eram sempre brincadeiras saudáveis.

            Aos
14 anos, fui pela primeira vez à uma discoteca. Adorava dançar. Lembro que
dançava tanto que ficava toda descabelada e a roupa molhada de suor. Curti
muito.

            Aos
15 anos, tive meu primeiro namorado sério. Acabei engravidando aos 16. Tive meu
primeiro filho aos 17 anos de idade. Por conta disso, tive que parar de
estudar.

            Fui
morar com o pai do meu filho. Vivíamos muito bem. Uma vida de casal normal.
Íamos à churrascaria, levávamos nosso filho na praça quase todo fim de semana,
sempre visitávamos a família dele. Enfim, uma vida muito boa. Aos 20 anos,
resolvi terminar o Ensino Médio.

            Certo
dia, voltei da escola com uma pequena dor no pescoço. Comentei com minha mãe,
pensamos que fosse garganta inflamada e passamos a tratá-la como tal. Tomava
mel, xarope, mas nada resolvia, eu continuava sentindo uma leve dor. Decidi
então ir ao médico. Ele me pediu uma ultrassonografia do pescoço. A médica que
fez o exame me disse assim: …é… tá um pouquinho inflamada a sua tireóide..”
. Como ela não falou nada tão sério, eu nem dei muita importância e nem levei o
resultado para o médico. Erro gravíssimo!

            O
tempo passou e eu percebi que começaram a aparecer alguns carocinhos no meu
pescoço. Decidi então voltar ao médico. Ele me pediu alguns exames. Como eu
estava com as regras atrasadas, resolvi fazer também um exame de gravidez. Os
resultados mostraram que eu estava com toxoplasmose, e o de gravidez deu
positivo. Esperei toda a gravidez e só depois que minha filha estava com 6 meses,
retornei no médico.

            Eu
já estava com alguns nódulos visíveis por todo o pescoço. Fiz vários exames de
sangue, ultrassonografia, e uma biópsia da tireóide. Os resultados apontaram
uma grande complicação da tireóide. Caso de cirurgia urgente.

            Numa
cirurgia de 5 horas, fiz a tireóidectomia total e a remoção de vários gânglios
que tinham se espalhado pelo pescoço. Mandamos o material recolhido para
biópsia. Resultado: Câncer de tireóide.

            Eu
nem me preocupei muito, porque afinal, eu já tinha tirado toda a tireóide.  Mas o que eu não sabia, é que podia ter
metástases. E foi o que aconteceu. Fui pra Manaus, fazer uma cintilografia
(exame que não fazia em
Porto Velho), e o resultado apontou metástases por todo
corpo, inclusive nos pulmões.

            Tive
que começar um tratamento a base de iodo radioativo. Nas primeiras sessões já
desapareceram boa parte das metástases. Mas as dos pulmões só regrediam. Eu
viajava sempre a cada 6 meses.  Na
segunda viagem, meu marido arrumou outra mulher e quando voltei nos separamos.

            Agora
eu estava, doente e com dois filhos pequenos. Entrei em depressão por várias
vezes. Com o passar dos meses, eu comecei a sentir um cansaço ao realizar
algumas tarefas caseiras como: Varrer casa, lavar roupa, lavar banheiro. O
cansaço foi aumentando até o dia em que já não conseguia fazer as coisas sem
parar pra descansar. Mas parava um pouquinho e já continuava o serviço. 

            Eu
também passei a tomar um hormônio pra repor da tireóide e controlar as metástases.
Continuei viajando para Manaus a cada 6 meses. Até que em uma das viagens o
médico disse que as metástases estavam controladas e que não precisava mais
tomar iodo. Pensei que ali tinham acabado todos os meus problemas. Pensei
errado. Eles mal estavam começando.

            Voltei
pra casa toda feliz. Passei a fazer curso pré-vestibular. Saía com minhas
amigas. Mas o tempo foi passando e eu estava sentindo um aumento no cansaço.
Andava um pouco e já tinha que parar pra descansar. E foi ficando cada vez mais
cansativo. Foi então quando em mais uma viagem a Manaus o médico disse que eu
estava com “FIBROSE PULMONAR”. Achei que tinha cura, até saber que a fibrose é
irreversível. Fiquei assustada. Como pode vencer um câncer e agora estar com
fibrose pulmonar?!

            A
essas alturas cada gripe que eu tinha virava logo uma pneumonia. Em uma dessas
pneumonias eu tinha tanta secreção nos pulmões que não conseguia mais respirar
direito. Foi então quando tive meu primeiro balão de oxigênio em casa. Mas não
usava direto, só mesmo quando fazia algum esforço. Como eu não fazia quase nada
então ele durou um ano. Até janeiro de 2009. Quando tive a mais forte de todas
as pneumonias. Um pequeno sereno da noite de ano novo e pronto!! Foi o
suficiente. Estava com os pulmões cheios de secreções.

            No
dia 02 de janeiro já não conseguia mais levantar da cama. Estava muito fraca e
sem respirar direito. Passei a usar o oxigênio 24 horas por dia. Um balão já
não dava pra 3 dias. Tive que ficar internada por 20 dias. No hospital vi gente
morrer do meu lado e na frente. Voltei pra casa com sintomas de síndrome do
pânico. Sofri muito. Passei a tomar remédio tarja preta. Mas depois de alguns
dias já estava bem. 

            Começamos
então a pensar sobre transplante pulmonar. Depois de algumas pesquisas
descobrimos que havia uma possibilidade de ir pra São Paulo fazer uma
avaliação. Viajei de UTI no ar do dia 01 /09/ 2009. Minha consulta estava
marcada pro dia 02. E lá estávamos eu, meu pai e minha prima, no INCOR
(Instituto do coração de SP).

            Na
primeira consulta, logo de cara, a médica só olhou meus exames bem rápido e já
foi dizendo que não poderia fazer transplante. Ela disse isso com muita frieza.
Mas ficou com meus exames pra estudar o caso com outros especialistas.

            Minha
próxima consulta seria dia 23. E lá estávamos nós de novo. Dessa vez a médica
não estava, só dois médicos. Um deles foi quem começou a explicar. Ele disse o
seguinte: Que lá atrás quando comecei a fazer o iodoradioativo, eu tomei doses
muito altas em pouco intervalo de tempo (de 6 em 6 meses), e desde lá já vinha
desenvolvendo a fibrose, mas que chegou a um ponto em que as fibroses estavam
aumentando e que as metástases estavam controladas (não mortas, controladas
apenas) e que por isso não pude mais tomar iodo.

            Para
fazer o transplante eu passaria por um processo anti – rejeição, que faria com
que essas metástases se desenvolvessem muito rápido, como se virassem uma bomba,
e eu morreria na hora.

            Foi
quando ele disse a terrível frase: “Infelizmente Aline no seu caso o
transplante tá descartado”.

            Os
minutos seguintes foram o piores de toda a minha vida. Pensei milhões de
coisas. Coisas que nunca mais iria poder fazer. 
Até me recuperar e ver que não há outro jeito de viver a vida se não da
melhor maneira “possível”. E o meu “possível”, é carregar uma bala de oxigênio
pra qualquer lugar que eu vá. Por causa de muita burocracia, não consegui
oxigênio pelo SUS. Tenho que pagar. O custo é muito alto, pois, uso 24 horas.

            Tenho
dois balões. Um grande (ao lado da cama), e um pequeno que uso quando saio do
quarto. Hoje sou sim uma dependente de oxigênio.

            Existe
uma máquina que chamamos de “concentrador de oxigênio”. Ela é ligada na
eletricidade, então não precisa ficar recarregando. O custo dela é de quase 6
mil reais. Eu não tenho condições de comprá-la à vista, por isso faço estamos
fazendo alguns eventos para arrecadar dinheiro e assim poder comprar um.

            Resumindo
minha história: “ TENHO UMA VIDA LIMITADA….MAS SOU MUITO FELIZ”

 

“….se a gente soubesse os problemas
futuros…aproveitaríamos mais o presente…”

 

 

ALINE DE SOUZA QUINTELA

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