Por Lúcio Albuquerque


Nem era 12 horas de segunda-feira, último dia de fevereiro de 2011, e o Sérgio Valente passeava nervoso perto da porta de entrada do Valhalla. Momentos antes dera uma olhada na Porto Velho que ele não mais conheceu e passara sobre o João Paulo II. “Não conheço mais ninguém por lá”, reclamava o Sérgio, mas ele não estava nervoso por isso. O problema era o fato de já ser a segunda-feira “magra” de carnaval e a turma queria botar o bloco na rua, mas faltava algum detalhe e ele não sabia o que seria.

Foi aí que ele viu, de longe, o tumulto. A fila não andava e havia reclamação contra a demora, tudo porque o funcionário da recepção, que já queria encerrar o expediente para poder almoçar, não conseguia acessar a ficha do novo hóspede. Encontrou depois de algum tempo e aí reclamou: “Pô, por que não disse logo seu apelido?”.

Afinal de contas poucos aqui, e lá também, conheciam o recém-chegado pelo seu nome civil, mas poucos aqui poderiam afirmar com segurança nunca ter ouvido falar daquela figura sempre com um cigarro entre os dedos, a roupa sempre muito larga e uma disposição constante de conversar.
“Faz tanto tempo que você não é mais conhecido por seu nome civil, Manoel Costa de Mendonça, que até aqui já deletamos. Nosso registro é o seu apelido”, explicou o funcionário enquanto autorizava a entrada do hóspede.

Sérgio, que como todo bom jornalista está sempre pronto para anotar uma novidade, aproximou-se da entrada e aí deu de cara com o novo hóspede, mal ele havia passado a primeira passada além da linha demarcatória.Ele não se conteve: “Manelão, você por aqui?. Ainda bem que você chegou. Agora nosso carnaval vai bombar”.

O grito do Sérgio atraiu a atenção de uma turma que tirava um “partido alto” debaixo de uma árvore copada. A batida parou e quando eles viram quem era foi aquele festival: “General da Banda, nem desfaça as malas. Depois você vai conhecer seus aposentos”, disse o magérrimo Vinícius Abrahão Coutinho Danin, jornalista e grande boêmio, praticamente sequestrando o Manelão para ele, antes de tudo, dar uma entrevista coletiva para falar sobre a viagem e seus planos nessa nova etapa da vida.

Na coletiva com presenças de Danin, Jorge Santos, Sérgio Valente, Roberto Vieira, Roberto Azevedo, Ivan Marrocos, Paulo Correia, a conversa foi tumultuada, primeiro porque o Ivan e o Danin, flamenguistas, queriam tirar sarro do botafoguense Manelão, e o vascaíno Paulinho Correia preferia falar das goleadas que o Vasco andou aplicando ultimamente.  A coletiva acabou praticamente antes de terminar, porque a turma da roda de samba queria era puxar o entrevistado para o bloco, enquanto o advogado Juvenal Sena reclamava porque não encontrava gelo para comemorar a chegada do amigo e tinha de tomar mais um puro.
No tumulto, decidiram ir almoçar. O Rogério Weber, depois de um longo abraço em seu companheiro de estrepolias no final da década de 1960, mandou que a passista Ruth, Diplomata doente, e o Bosquinho, que se vestia de noiva na banda do Vai Quem Quer, fossem correndo dizer ao Claudinho, cozinheiro experimentado e que no carnaval sempre aparecia fantasiado de cadelinha poodle, para “botar mais água no feijão” porque o Manelão havia chegado e a turma ia para a boca livre.

Ninguém sabe quem avisou a carnavalesca, folclorista, política e professora Marise Castiel, mas ela apareceu em companhia do jornalista e advogado Rochilmer Rocha que está cuidando de fazer circular seu novo jornal lá para aquelas bandas.

Com dona Marize vieram também várias costureiras que com ela faziam as fantasias que fizeram a Pobres do Caiari se transformar em referência de beleza nos carnavais porto-velhenses.

O Gainete, que sempre estava por perto do doutor Rochilmer, ao encontrar o Manelão logo começou a perguntar pela turma do café da Zenilda, no Mercado Central, onde o Gainete era o “dono da banca”  e o Manelão um dos membros da confraria. Gainete vinha com outro membro do grupo, o advogado França, que já colocou à disposição o escritório que tem por lá em sociedade com o doutor Abílio Nascimento, para o caso do general decidir botar uma banda e ter problemas para resolver, como tinha quando estava aqui no “vale de lágrimas”.

Na casa do Claudinho a festa foi grande, e demorada. Afinal, além da chegada do Manelão, o cozinheiro tem fama de entendedor e a turma que chegava não é de comer pouco. Os colunistas sociais Roberto Vieira e Sérgio Valente logo botaram nos seus blogs a nova e alguns dos que estavam presentes: Os músicos Antonio do Violão, Jorge Andrade, os sambistas Neguinho Menezes, Leônidas Chester , Neguinho Orlando, Bola Sete; os boêmios Claudio Carvalho, Bráulio Bigode, José Carlos, Esmite Bento de Melo, o Esron Menezes; o carnavalesco Waldemar Cachorro, o advogado Marcos Soares e até o ex-prefeito Chiquilito Erse que participou da fundação da Pobres do Caiari.

O ex-prefeito e engenheiro Luiz Gonzaga já chegou falando alto. Com ele vieram outros integrantes do “Bloco da Cobra”, junto com o seringalista Francisco Paiva, o professor Câmara Leme, o comerciante Hortêncio Simplício, o Abel Marques, a turma foi se chegando.

A conversa andava animada e os tira-gostos já estavam circulando, uns cubos de peixe frito que foram atacados pela turma, com destaque para o Manelão que estava com uma fome braba. O papo descambou para o carnaval, para o último baile municipal e o Sérgio Valente lembrou dos que realizava.

A turma perguntou sobre o Mercado Cultural e o show de samba das noites de sexta-feira, ficando admirados que tanta gente recém-chegada gostasse das músicas do Ernesto Melo e do Sílvio Santos contando a história de Porto Velho. Esmite, pai do Ernesto e do violonista Ênio, encheu-se de orgulho. A conversa foi rolando por aí.

Mas de repente, sem que ninguém tocasse no assunto que, no entanto, estava transpirando no ar, todos ficaram em silêncio. Mas nada a ver com tristeza. É que os músicos, que vinham apenas ritmando velhos sambas, decidiram tocar: “Chegou a banda, a banda, a banda. A banda do Vai Quem quer….”.

Aí o Manelão levantou e disse: “Tá bom, rapaziada: eu aceito o convite que nem precisou ser feito. Vamos botar a banda na rua. A Banda do Vai Quem Quer vai sair sábado, no mesmo horário e no mesmo local”.

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