A HIPOCRISIA DAS CAMPANHAS PÚBLICAS I

            Quando decidi escrever esta série de artigos tive que considerar fatos que realmente ocorreram e não me deixar levar pelas suspeitas de outras pessoas ou informações disseminadas na mídia.

            As campanhas públicas carregam em seu bojo uma intenção de comover a população. Isso leva a crer que existe intenção clara de desviar a atenção do povo de um problema maior – e público ou político – que esteja ocorrendo.

            Vejamos primeiro a campanha de doação de sangue.

            Os veículos de informação são amplamente utilizados pelo poder público, promovendo uma espécie de comoção geral ao “implorar” que as pessoas se dirijam a um hemocentro para doar sangue.

            O que é doar sangue, propriamente? E para onde vai o sangue doado? Essas perguntas não encontram respostas técnicas nos anúncios televisivos, abusivamente pagos com o erário público.

            Pois bem… vamos ilustrar com fato verídico e pessoa.

            No início dos anos 70 caiu um elevado (viaduto) na Avenida Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro.  Foi um desastre de proporções elevadas. A população foi mobilizada para a doação de sangue, pois havia vítimas que estavam sendo mutiladas numa verdadeira “operação de guerra” para salvar vidas.

            Estive no local e o que vi impressionou-me (até hoje). Macas improvisadas onde pessoas eram instaladas para doar sangue ali mesmo, na rua…  em outros pontos médicos literalmente serravam ossos, na tentativa de retirar com vida pessoas que haviam sido esmagadas pelo concreto desabado.

            Foi a primeira vez que doei sangue. As centrífugas estavam instaladas atrás de biombos. Fios de tomadas puxados de bares e residências. Gritos, choros, convulsões… desespero.

            A partir de então, prontifiquei-me a doar sangue periodicamente.

            Ao me transferir para Porto Velho em definitivo fiz da doação uma constante em minha vida. Inúmeras vezes fui acordado com telefonemas que pediam para ir ao Hemeron urgentemente. Precisavam de sangue!

            Quantos certificados tenho? Nem eu mesmo sei. Nunca faltei ao trabalho um dia sequer. Nunca compensei com horas de descanso. Não aceitava sequer o “lanchinho” oferecido no centro de coleta. Fazia apenas humanitariamente.

            Até 2000.

            Fui ao Hemeron voluntariamente, sem ser chamado. Raramente precisavam chamar. E fiz a doação.

            Pedi, então, a uma pessoa amiga, que trabalhava lá, que “pegasse” o resultado dos exames laboratoriais – rotina para os doadores.  E estava tranqüilo pois nunca fiz parte de grupos de risco, nunca usei drogas ou compartilhei equipamentos e também não levava vida promíscua. Estava certo que a saúde andava a cem por cento.

            Para espanto, dias passaram-se sem que tivesse recebido os resultados de meus exames.

            Ao retornar ao Hemeron (mais de dois meses, após) fui informado que tinha que falar como médico. Questionei o por que e pedi que mostrassem meu dossiê. A enfermeira recusou e ficou ainda mais nervosa, correndo com uma pasta ao consultório do médico. Àquela altura eu já estava alarmado. Pensava que estivesse soropositivo ou coisa assim.

            Mesmo argumentando que tinha meu direito constitucional ao hábeas data, não consegui ver meu dossiê. E só pude saber dos resultados quando o médico, finalmente, atendeu-me.

            Então falou que precisava repetir meus exames pois surgira um fator preocupante: antígeno Delta-anti-B. Ou seja, afirmava que eu tinha contraído Hepatite do tipo B, e que poderia ter obtido a cura espontânea o que era possível de ocorrer. Mas meu sangue houvera sido recusado. Portanto, DESCARTADO. Melhor dizer: MEU SANGUE FORA JOGADO FORA.

            Nada demais para eles. Jogaram meu sangue fora e não me informaram sobre nada do que tinha acontecido ou poderia acontecer. Simplesmente calaram. Aguardaram que eu aparecesse por lá para, só então, ser informado do que ocorrera e como tinham procedido a respeito.

            Para um leigo, o sangue doado pode representar pouco ou nada, ou então parte de sua vida.

            Para mim, não. Sei que o material coletado poderia salvar pelo menos quatro vidas. Sim QUATRO!

            Atônito com os acontecimentos, aceitei, já acalmado, repetir os exames.

            E não o fiz apenas pelo Hemeron. Repeti também em Laboratório particular, de minha confiança, às minhas expensas.

            Mas antes, ao solicitar de meu médico a requisição, ele lembrou-me que havia tomado vacina para Hepatite B em sua clínica, em 1995. Cinco anos antes. E o antígeno permanecia por no mínimo dez anos no corpo imunizado. Poderia ficar para sempre. Portanto, eu não havia contraído Hepatite, mas fora imunizado contra o tipo B.

            E a confirmação pelo Laboratório particular veio em seguida. Era detentor do antígeno Delta-anti-B. Isso era confortável pelo aspecto de saúde. Era um indivíduo saudável.

            E, mesmo assim, meu sangue fora despejado no lixo.

            Não alarmei-me com esse procedimento, pois já houvera oportunidade de ser chamado para doação e o ambiente de coleta estava “cheirando a abatedouro”. Haviam “esquecido” uma bolsa de sangue coletado e o material – já em decomposição, após vários dias esquecido no ambiente – fora retirado fazia pouco tempo. O ar estava impregnado de um fedor horrível e a coleta foi realizada em outra sala, com equipamento (cadeira, etc.) improvisado.

            Mas, no caso de doador contumaz, a preocupação ficou latente.

            Se jogaram o meu sangue no lixo, quantos mais não o fizeram?

            A pergunta não encontra resposta. A questão continua presente. Por que as campanhas são tão difundidas e os doadores são tratados com tanto descaso? Pior: o material, também.

            Questionei, à época, o que fariam se meus exames resultassem em soropositivo? Não responderam, sequer.

            Desde então, não me apresentei para doador. Também não fui requisitado mais. Devem estar pensando, até hoje, que sou portador do vírus. Basta estudar para saber que antígeno não é vírus. É defesa contra.

No próximo artigo: A intervenção fora-da-lei do IBAMA.

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