Quem não conheceu, sequer pode imaginar que onde hoje está a Rodoviária Municipal já foi um local tranquilo, onde as águas do igarapé, límpidas tal qual cristal, passavam tranquilas e podiam ser sorvidas com abundância.

Hoje o canal fétido, mal cuidado e maltratado… sequer deixa as lembranças povoarem tranquilas na mente dos que por ali se criaram.

Progresso? Progresso!!!??? Que progresso??? Progresso é vacina! Progresso é a multiplicação dos pés de mandioca, banana, feijão, milho… isso é progresso. Destruição nunca pode ser chamada de progresso.

O texto de Beto Ramos pode ser carregado de saudosismo, mas o que o homem  faz criando cidades, concentrando populações para melhor controlar a massa humana não pode ser chamado de progresso. É destruição de tudo, principalmente da qualidade de vida.

Estranho… estranho demais que as pessoas sejam levadas, tocadas como bois rumo ao perrengue do curre… e ainda se sintam felizes…

Se vida na cidade fosse boa, realmente… se o “progresso dos MacDonalds” fosse saúde… quando nos chega a idade da experiência não buscaríamos o sossego do sítio, da fazenda, da chácara.

Faculdade é bom. Melhor é a faculdade da vida. Da vida ao ar livre, na beira do rio, do lago ou igarapé.

Beto, te entendo. Entendo teu saudosismo amigo. Entendo que tua infância não pode e não deve ser esquecida. Muito menos maculada. Foi a melhor das infâncias. Quiçá pudéssemos, atrevidamente, revivê-la  “in totum”.

Diz a lenda – Alberico

Por: Beto Ramos

Lava roupa minha menina.

Leva a roupa para quarar.

A trouxa estava pesada.

Roupas de toda a família você vai ter que esfregar.

O Escuta Briga ficou sorrindo quando você passou.

Esfrega a roupa na beira do Alberico.

Hoje, o local é a Rodoviária de Porto Velho.

Vai ter corrida de cavalo na Av. Salgado Filho.

Banhe-se minha menina.

Águas do Igarapé.

Esfrega a roupa.

Meia suja.

Camisola, camisa e não paletó.

Bate a roupa na tábua molhada.

Para mim é talba molhada.

A corrida não pode esperar.

A anágua da vovó precisa ficar alvinha.

Enquanto a roupa esta quarando, pegue alguma araçá.

Tem araçá boi.

Lava roupa minha menina.

Cante como um curió.

Lembre que na Escola Domingos Sávio alguém vai te esperar.

Esfregue bem a roupa, depois pense em namorar.

Quando você passou, a Maria Suja te observou da porta de sua casa de palha.

Tire a roupa do quarador.

Na volta à trouxa vai estar bem mais pesada.

– Maria!

– Senhor pai!

– Está na hora de voltar!

– O senhor me ajuda a espremer a roupa?

– Claro minha filha!

– Precisamos nos apressar, pois a comida vai esfriar.

Lave a roupa minha menina.

Leve a roupa para quarar.

Precisa esfregar.

Depois espremer bem.

O sabão vai ter que sair.

– Vamos ver a corrida de cavalos?

– E porque você acha que vim te buscar mais cedo!

– Pai, um dia o Alberico vai acabar?

– Ele vai se transformar minha filha!

– A modernidade vai chegando.

– O senhor aceita uma araçá?

– Sim! Mas vamos que a corrida de cavalos logo vai começar.

– A linha de chegada vai ser na Av. Afonso Pena!

Minha mãe lembrou que um dia lavou roupa no Alberico.

Hoje, existe centrífuga e máquina de lavar.

Ela ainda deixa a roupa para quarar.

Diz a lenda

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