Peixe?

Peixe?

Onde é o teu esconderijo?

Já comprei a farinha d’água pros meninos.

Tem cheiro verde, cebola, pimenta malagueta e olho de peixe, tomate, limão e chicória.

Mas, onde é teu esconderijo?

Você está com medo daquele monstro de concreto ali na curva do rio?

Já está anoitecendo e preciso levar alguns peixes pros meninos.

Cadê o pacu, jatuarana, curimatá, tambaqui, tucunaré, piau, mandi, aruanã, jaú, pintado, barba chata, tamuatá?

Peixe?

O que vamos jantar?

Cadê a piracema?

Lá em casa o fogareiro já deve estar aceso.

Ah! Santo Antônio não te protegeu?

Mas, para o progresso não existe santo, pedra da cachoeira, nem curva de rio.

Meu avô me ensinou a pescar.

Ensinei meu filho a pescar.

Tu se escondendo desse jeito, vou precisar ensinar minha neta a comprar aqueles peixes com os olhos sem brilhos do supermercado.

Peixe?

Cadê tu peixe?

Cavei no pé do jirau pra achar minhoca.

Tem milho e pirão de farinha.

Queria te pescar no rio Madeira.

Ali nas cachoeiras.

Existia até campeonato de pesca.

É peixe, acho que hoje a meninada vai comer é cabeça de galo com farinha.

Basinho, tu se lembra da cabeça de galo com pimenta do reino?

Mas, pode ser caldo de caridade.

Basta ter farinha.

Peixe?

Peixe?

Peixe?

Eu sei por que você se escondeu.

Agora posso começar dizendo: Eram uma vez as cachoeiras, onde pegavam peixes com as mãos!

Beradeiro que é beradeiro sabe diferenciar peixe de rio do peixe de viveiro.

Não é que o peixe de viveiro não seja saboroso.

Mas, quem bateu linha nas cachoeiras e nas margens do rio Madeira vai entender o que estou querendo dizer.

Diz a lenda

N.R. Entendo bem o que Beto sente e transmite em suas palavras. Ants mesmo das obras fdas Hidrelétricas começarem a “famigerada” PA (Polícia Ambiental) cumprindo ordens (de quem?) prendia pescadores e apreendia apetrechos de pesca.

Dizia-se que era em defesa dos cardumes. Para que não sumissem do Rio Madeira.

Tempo passou rápido. Os peixes mortos em Santo Antonio, naquele laguinho, formado pelos diques da hidrelétrica, cerca de 100 toneladas, segundo o Sindicato dos Pescadores informou à época, foram diluídos na pobreza de espírito dos mandatários do “Meio Ambiente.

Sempre disse e reafirmei: não creio em meio ambiente que não possa ser utilizado pelo ser humano.

As obras continuam e diuturnamente se ouve pela manhã ou à tardinha (às vezes, nos dois horários) as explosões que sacodem o pedral de Santo Antonio. Qual peixe se atreve a subir o rio por ali?

Ahhh… Sim…   Falaram no tal canal. Aquele canal em forma de escada, por onde os “bagres do Madeira” subiriam ao lago da hidrelétrica.

Outra balela das grandes “pra inglês ver”.

Da mesma forma que as eclusas – que não saem do papel e, creio, nunca sairão.

Estive em Teotônio.

Os menos avisados ainda tentam… tentam, apenas.

As águas turvas do Madeira não limparam. A obra de Jirau não permitiu. O derrame das detonações nos pedrais poluiram meu rio de águas dantes caudalosas, mas limpas.

Meu Rio Madeira! Que corre em minhas veias!

Minha infância em ti, fez-me a ti retornar.

Pena que foi pra ver tua morte, meu belo e querido Madeirão.

Junto a ti morrem minhas esperanças e de tantos outros, como Beto – o Ramos.

Junto a ti, Madeira querido, morrerão brevemente as lembranças, pois as novas gerações nada saberão de teu passado glorioso.

E teu leito, dantes salpicado de peixes, tal qual o céu é salpicado de estrelas, hoje mostra-se inerte… vencido… sucumbido à ganância do progresso desenfreado.

Infelizmente.

 

 

Anúncios