Chico Mineiro – o auto Greco-tupiniquim

 

Por Antônio Serpa do Amaral Filho

 

 

Juiz Federal Herculano Nacif vivendo a tradição oral de contar, para as novas gerações, a estória de Chico Mineiro

 

Ao ouvir a toada de Chico Mineiro nos damos conta de que o homem do campo é um contador de estória. Vivendo a seu modo simples ele, às vezes, ao cair da noite, quando o mundo lhe outorga a paz do campo, se põe a curtir um dedo de prosa, narrando à moda dos velhos viajantes árabes os causos vivenciados no presente, ou no passado próximo ou distante. E assim, cada um, segundo sua capacidade de inventariar suas pegadas pelo mundão de meu Deus!, passa a contar suas memórias, feitos e acontecidos, e a conversa vai crescendo, esticando, se desfiando feito um rolo de lã que abastece o fazer de uma grande peça forjada pacientemente nas mãos criativas de um artesão.

 

É conversa pra mais de metro. De todos os tipos. Conversa boa. Incontida. Fluida. Envolvente. Engraçada. Triste. Dramática. Risonha. Séria. Mentirosa. Cabeluda. Coerente. Fascinante. Verdadeira. Verossímil. Inventada. Real. Imaginária. Incoerente. Capciosa. Lacrimejante. Hilariante. Bisonha. Pudica. Bisbilhoteira. Escrachada. Sobre si. Sobre o outro. Sobre o mundo. Com graça. Sem graça. Com jeito. Sem jeito. Trejeitos. Gestos. Risadas. Pausas. Levante de voz. Sussurros. Berros. Confidências. Revelações. Descobertas. Descritivas. Narrativa. Analíticas. Procríticas. Enclíticas. Mesocríticas. Acríticas. Políticas. Apolíticas. Curtas. Longas. Emboladas. Claras. Transversas. Rimadas. Em trova. Em prosa. Em verso. Em meias palavras. Com todos os pingos nos is. Apologéticas. Sintéticas. Lentas ou ligeiras. Concretas ou fofoqueiras. Carismáticas ou leseiras. Performáticas ou besteiras. Temáticas ou caseiras. Pragmáticas ou Embusteiras. Acontecidas. Longínquas ou na biqueira. Ouvidas. Testemunhadas. Racionais ou encantadas. Simplórias ou fantásticas.

 

Porque tudo pode ser contado. Um dedo de prosa não faz mal a ninguém. O mundo é pequeno na língua do peão rodado no trecho, o universo caipira é bem maior do que possa sonhar nossa vã filosofia cartesiana. Todo mundo pode contar um conto e aumentar um ponto. Pode ser Chico, pode ser Zé. Joaquim. Ibrhaim. Serafim ou Mané. Assunta quem sabe assuntar. A língua é de quem quer falar. A fala é de quem pode. Pode quem sabe contar. Conta quem sabe narrar. Narra quem tem pra dizer. Quem já andou. Quem amou. Quem sorriu. Quem viveu. Quem já curtiu. Quem já viu. Que não viu. Quem já sofreu. Quem esteve lá. Quem ouviu falar. Quem tem tutano no cabeção pra inventar. Quem tem pé de vento no pensamento pra voar.

 

Chico Mineiro é uma clássica narrativa epopéica do vasto sertão pindorama. Um auto Greco-tupiniquim. Romântico, dramático e trágico, o enredo da canção caipira perfaz o imaginário dos sentimentos mais nobres dos peões de boiadeiro, que, em comitiva levando suas boiadas, peregrinam pelos campos vivendo suas aventuras, amando os seus amores e cantando, de viola em punho e trago de aguardente amaciando a garganta, suas dores e chagas existenciais.

 

Na turbulência dialética da caminhada terrena, Chico Mineiro perdeu a vida para que o narrador encontrasse a inusitada irmandade secreta tantas vezes perto e muitas vezes longe dos seus olhos e do seu coração. A banda oculta da morte revelou a face misteriosa da vida, mostrando que nos sertões paradisíacos do homem do campo as antíteses impregnam o verde da campina, o trote da boiada e a pândega sacra ou profana da Festa do Divino Espírito Santo.

 

Desses causos cantados e declamados em verso e prosa, ao som da viola, vive a beleza da legítima música caipira brasileira.

 

E que a quem possa duvidar, assevero: foi lá pros sertões de Goiás…

 

 

ASCOM/SJRO

 

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