Canção do Tamoio

 

Antônio Gonçalves Dias

 

 

            I               

 

  Não chores, meu filho;

 

  Não chores, que a vida

 

  É luta renhida:

 

  Viver é lutar.

 

  A vida é combate,

 

  Que os fracos abate,

 

  Que os fortes, os bravos

 

  Só pode exaltar.

 

 

            II

 

  Um dia vivemos!

 

  O homem que é forte

 

  Não teme da morte;

 

  Só teme fugir;

 

  No arco que entesa

 

  Tem certa uma presa,

 

  Quer seja tapuia,

 

  Condor ou tapir.

 

 

            III

 

  O forte, o cobarde

 

  Seus feitos inveja

 

  De o ver na peleja

 

  Garboso e feroz;

 

  E os tímidos velhos

 

  Nos graves concelhos,

 

  Curvadas as frontes,

 

  Escutam-lhe a voz!

 

 

            IV

 

  Domina, se vive;

 

  Se morre, descansa

 

  Dos seus na lembrança,

 

  Na voz do porvir.

 

  Não cures da vida!

 

  Sê bravo, sê forte!

 

  Não fujas da morte,

 

  Que a morte há de vir!

 

 

            V

 

  E pois que és meu filho,

 

  Meus brios reveste;

 

  Tamoio nasceste,

 

  Valente serás.

 

  Sê duro guerreiro,

 

  Robusto, fragueiro,

 

  Brasão dos tamoios

 

  Na guerra e na paz.

 

 

            VI

 

  Teu grito de guerra

 

  Retumbe aos ouvidos

 

  D’imigos transidos

 

  Por vil comoção;

 

  E tremam d’ouvi-lo

 

  Pior que o sibilo

 

  Das setas ligeiras,

 

  Pior que o trovão.

 

 

            VII

 

  E a mão nessas tabas,

 

  Querendo calados

 

  Os filhos criados

 

  Na lei do terror;

 

  Teu nome lhes diga,

 

  Que a gente inimiga

 

  Talvez não escute

 

  Sem pranto, sem dor!

 

 

            VIII

 

  Porém se a fortuna,

 

  Traindo teus passos,

  

  Te arroja nos laços

 

  Do inimigo falaz!

 

  Na última hora

 

  Teus feitos memora,

 

  Tranqüilo nos gestos,

 

  Impávido, audaz.

 

 

            IX

 

  E cai como o tronco

 

  Do raio tocado,

 

  Partido, rojado

 

  Por larga extensão;

 

  Assim morre o forte!

 

  No passo da morte

 

  Triunfa, conquista

 

  Mais alto brasão.

 

 

            X

 

  As armas ensaia,

 

  Penetra na vida:

 

  Pesada ou querida,

 

  Viver é lutar.

 

  Se o duro combate

 

  Os fracos abate,

 

  Aos fortes, aos bravos,

 

 Só pode exaltar.

 

 


 

 

 

 

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