Diz a lenda – A serenata do Nonato

 

Por: Beto Ramos

 

 

A primeira referência de violão que tenho, é a lembrança do meu tio Nonato Ferreira.

Caboclo que partiu de Porto Velho para estudar em Belém, após muitos desenganos em terras Karipunas.

Meu tio usou cabelo Black Power, o qual penteava com um pente de três pontas meio estranho.

Usava um medalhão estilo Roberto Carlos, com calça boca de sino e sapato cavalo de aço.

Certa vez, contou-me uma de suas aventuras, com o Zezinho Arcanjo, na qual foram fazer uma serenata lá pras bandas do Areal ou Baixa da União.

– Zé, foi um aperto danado!

Meu tio tocava razoavelmente bem o violão.

Tenho lembranças de sua voz cantando Paulo Diniz, Fernando Mendes e tantos outros.

Tudo era festa e tudo era lindo.

Disse-me que comprara o violão em doze prestações para impressionar o broto.

Fez até ensaio, com o olhar desconfiado de minha avó Raimunda.

E lá foram eles para a missão de cantores da multidão.

A turma do Alumínio já havia dado um susto nele.

Bem, ele levou na brincadeira, pois frequentava a Baixa da União, Areal, Mocambo e de vez em quando gostava da fumaça do trem.

Na ida, disse-me ele, foi uma festa.

A turma até elogiou o violão, o estilo deles.

– Somos os donos do pedaço, pensaram eles.

Com o bojo perfeito junto ao peito, fizeram a cantoria, sendo observados de longe pela turma, que já fazia gestos, tipo, vamos te pegar na hora da saída.

– E agora?

– Vamos disfarçar e azular na carreira!

Mas, a turma já havia fechado a rua.

– Vamos encarar, somos homens ou sacos de batatas?

Homem ou saco de batata, o Nonato me contou que o Zezinho Arcanjo saiu em desabalada carreira, levando muitos safanões, chutes no traseiro e tabefes no ouvidor de música.

E ali estava o Nonato, vou ou não vou.

Nesta hora o violão já era arma de defesa.

– Zé, os caretas se aproximaram de mim, e a primeira bicuda foi no violão, comprado em doze prestações.

O pé do cara ficou dentro do violão.

– Tu não és daqui e vem dar uma de cantor!

– Vais levar uma lição!

O Nonato percebeu que a garota observava a confusão da porta de sua casa, feita de tábuas com muitas mata juntas nas paredes.

– Então teve um lampejo de valentia.

– No meu violão não violão!

– Pega! Segura ele!

E lá foi o Nonato em desembalada carreira, também levando safanões, rasteiras, mas, sem soltar o violão arrebentado pelo chute do enciumado do pedaço.

O Nonato resolveu se esconder pertinho de um poste, com muito mato ao redor.

Ali ficou quietinho por algum tempo, e ouviu quando a turma passou falando que ele ainda estava por ali.

– Zé, um formigueiro medonho com formigas ferrando minhas canelas e subindo pra minhas partes baixas.

– Mas, tinha que suportar, senão, boxe!

As formigas ferrando e ele falando bem baixinho:

– Poxa, meu violão comprado em doze prestações, e eu ainda não paguei nenhuma.

– Nunca mais vou fazer serenata pra ninguém!

Na época meu tio partiu para Belém, tornou-se mecânico de helicópteros, e por muitos anos fez missões para plataformas de petróleo pelo Brasil a fora.

Hoje, não está mais entre nós, já partiu pro andar de cima, deixando muitas saudades.

Bem, lembrei-me desta história, pois observava certo violão negro, companheiro de muitas aventuras e desventuras do poeta da cidade Ernesto Melo.

O poeta me deu a guarda permanente dele, numa quarta feira à noite, no Bar Jangadeiro.

De suas cordas nasceram, A luz do Samba, Exaltação para Santa Clara…

Vejo este violão com muitas rimas, melodias, ritmos e harmonias.

Sempre que passo próximo a ele parece-me que ouço alguém dizer, eu estou aqui, esperando por você, para cantarmos Porto Velho.

Diz a lenda