CARNAVAL 2013

 ASFALTÃO – O SAMBA EM MEIO A GUERRA FRIA

Por: Altair Santos (Tatá)

Amigo leitor: pense num clima de acirrada disputa é esse que envolve a escolha do samba da Escola Asfaltão! Há dois meses o tempo fechou, embaçou de vez, após a diretoria haver divulgado a sinopse do enredo aos seus muitos compositores. Desde então o que se vê é uma frenética movimentação ornada por blá blá blá, ti ti ti e disse me disse. É parceria pra cá e pra lá, é um tal de falar baixinho e pisar macio, olhar de banda, ou seja, é uma crescente guerra de nervos onde impera a investigação, a abelhudice, a espionagem, a xeretagem, os xavecos, os desafios e blefes, de parte a parte. Uns a todo o custo, tentam desestabilizar os concorrentes e, pelas vias do psicológico, se creditar de vantagens iniciais, afinal é disputa e, como tal, faz parte do jogo. Ancorados na experiência do amigo Zekatraca traçamos uma estratégia investigativa e saímos em busca dos acalorados fatos que emolduram a já aquecida e nervosa disputa. Na missão andamos lá pela região do Bairro Santa Bárbara e arrabaldes. Partimos do Bar do Calixto garimpando poucas e boas sobre a dita contenda. Passamos pela Tenda do Tigre, Varanda do Takanã, Bar do Antonio Chulé e rondamos na frente de algumas residências nas ruas Bolívia e Jaci Paraná, sem obter êxito nas investidas afinal, por ali, exceto nas sextas e sábados tudo está em visível calmaria, um silêncio sepulcral neste pós feriado de 2 de novembro. De certo a turma resolveu esconder o jogo. Sabe-se que muitos levantaram acampamento, sumiram da área, indo trabalhar suas composições e ensaios bem longe dos olhos e ouvidos dos curiosos e tagarelas que, por seu turno, estão ávidos pra saber como a escola vai pra avenida. Confessamos não ter sido fácil romper a cortina do silêncio e persuadir tigres e tigresas pra que dissessem algo sobre suas composições. Após semanas de muita busca e, quase vencidos pelo cansaço, veio uma luz. No último domingo, fomos ao Bairro COHAB – na residência do amigo Zigo pra comemorar o seu aniversário. Lá, num golpe de mestre, após um suculento rega bofe com muita birita e samba, conseguimos que alguns segredos fossem cervejadamente revelados. Dentre os presentes, representantes de quatro sambas concorrentes estiveram lá. De cara um clima perfeito para sondagens e descobertas. Inicialmente apenas as pastoras marcavam presença. Após a vasta comilança e desenfreada bebericagem, já se via por lá o Trio de Ouro, leia-se Zé Baixinho, Oscar Knightz e Bainha, além do Danilo e seus parceiros do Grupo Fina Batucada e o Misteira, que neste ano fechou potencializada parceria com Mávilo Melo e Fernando Chapéu pra entrar na briga. Na festa, todos se comediam em gestos, economizavam palavras, se limitavam a pequenas e leves insinuações, em forma de doces e suaves alfinetadas pra ver se alguém escorregava e entregava o jogo cantando – ou falando que fosse – ao menos uma frase de seus sambas. Ocorre, porém, amigo leitor, que a certa altura, nos acréscimos do jogo, quando ninguém mais esperava veio a boa! Os ânimos se exaltaram, começaram os desafios em todas as direções. E aí foi o maior trololó. Pastoras desafiavam o Trio de Ouro e num ataque súbito, quase despem o mestre Oscar knigthz de suas vestes, numa revista pra lá de detalhada pelos bolsos da calça do negão, em busca da letra do samba. Vendo-se acuado o Oscar tirou do bolso um pedaço de papel dizendo conter ali, a letra do samba. Fez-se certa calma e expectativa. Após checagem viram que era pura bravata. O papel era uma fatura paga na lotérica. Nisso chega o Bainha que pressentindo algo anormal, trouxe como proteção contra olho gordo, quebranto e mau olhado, um galho de arruda na orelha e logo se disse de corpo fechado, ungido e iluminado, tanto que já estava com o seu samba na ponta da língua. Na varanda a mesa de refeição ainda repleta de quitutes, deu lugar a uma esotérica coleção de objetos e produtos. Cabeça de alho, folha de louro, pimenta, vela de sete dias, sal grosso e até um binóculo comprado na Bolívia (por algum espião) compunham o intrigante cenário. Em meio a esse emaranhado todo, a situação do Waldison (Misteira) parece ser a mais delicada. Na noite passada o rapaz recostou-se para o merecido repouso. A Sílvia (sua esposa e uma das pastoras do Asfaltão) aproximou-se e tentou lhe fazer um carinho na nuca, enquanto o compositor candidamente adormecia em transe, rumo ao sono dos justos. Porém ao movimento dos afagos, quase já sonhando,  Waldison se fez assustado. Sem nada entender pulou da cama, pensou no pior!  Num ritmo mais pulsante que a “pura raça”, a bateria da Escola, seu coração disparou. Estaria a sua amada Sílvia, enfiando a mão na fronha do travesseiro onde justo ele escondia a letra do seu samba? Teria ele o seu plano jogado por terra? Sua composição seria plagiada pelas pastoras ou entregue ao Trio de Ouro, ao Tavernard e Eduardo? Ao Lamaysson Thobá e outros concorrentes? Ainda se refazendo da turbelência que lhe acometera, perguntou ele à patroa: você quer a mim ou quer o meu samba? Pense na madrugada! Ainda na casa do Zigo, pra botar certa ordem na coisa, alguém pulou na frente e propôs um pacto: todos cantariam pelo menos o refrão. A essa altura com plano do desequilíbrio etílico pontuando acima da média, o acordo foi democraticamente selado. Os representantes cantaram seus refrões ou parte deles (bons trechos por sinal). Mais tarde, com a noite de domingo avançando além dos gols do fantástico, tigres e tigresas deixaram o samba de lado pra dançar até altas horas, o tal hit da latinha. O concurso para a escolha do samba da Asfaltão, será no próximo dia 14 de novembro – 21h, na sede do Ypiranga (Rua Pinheiro Machado). Quem viver verá!

(*) tatadeportovelho@gmail.com