Se não reproduzisse em meu “espaço” a bela crônica que Antonio Serpa do Amaral Filho, a quem carinhosamente os amigos denominam “Basinho”, escreveu sobre o poeta/ator Mado estaria me furtando à responsabilidade com a cultura portovelhense.

Isso, porque Mado não é apenas um poeta, ou apenas um ator. Soma os dois e nessa conjunção artística traz o sangue portovelhense à tona, nos palcos que lhe oferecem.

Mado não se importa onde lhe oferecem palco. Pode ser na rua, no barranco do “Mardeira” ou nas melhores iluminaçõs ribaltenses. Ele está lá, com o furor do homem do povo. Aquele ser que vem das tradições enraizadas e que o tempo não devora nunca. Mado é, e precisa ser, figura dos palcos, sejam da vida ou da arte.

Carlos Macedo Dias será sempre ele.

Atenção público presente! Senhoras e Senhores.

Ele:

MADO!

   Fona, poeta Mado!!

                         Por Antônio Serpa do Amaral Filho (Basinho)        

     o poeta Mado em cena - foto Basinho 03

Interpretando texto de sua própria autoria, o poeta Mado (Carlos Dias Macedo) dá o bote e volta ao palco do Teatro Banzeiros, de onde ele nunca deveria ter saído, depois de passar uma temporada ocupando cargo burocrático na Fundação Cultural Iaripuna, na administração Roberto Sobrinho. Na assistência de direção: Natália Lima; som: Elizeu Braga; iluminação de Seu Ozias, com o apoio do fotógrafo de Beto Ramos.

Menino criado sem cueca nos confins do bairro Olaria, o artista desfolha, no tablado da ribalta, um conjunto de reminiscências à guisa de inventário do mundo pretérito que aos poucos vai se desmilingüindo e se exaurindo na memória dos nativos destas barrancas caiari.

Bem à moda chapliniana, com todas as caras e bocas que essa escola exige para o fiel cumprimento de seu mister cênico, o poeta Mado, como é mais conhecido o ator, se aventura numa empreitada heróica e alvissareira, se não quixotesca: recosturar a colcha de retalhos das lembranças esfareladas na falta de identidade da gente Guaporé, munido apenas da palavra e sua força expressional, como um tresloucado personagem de Shakespeare a predizer aos autóctones em vernáculo gringo modernista: tupy or not tupy, that is the question. E já que os nativos não são tudo aquilo que gostariam de ser, no atual cenário político, cultural e econômico desta página histórica contemporânea, então o jeito é relembrar como éramos há quatro décadas passadas, quando o jornalista Inácio Mendes, desfilando no bloco “Rei das Selvas”, do carnavalesco Waldemar Cachorro, exibia o letreiro “não dou meu quati”, carregando sob o ombro o animal possuidor de nome tão propício ao jogo de palavras. Escrachado e corajoso, Inácio Mendes postou a manchete no jornal “O Combatente”: “Fantasiado de veado com bigode postiço”, se referindo ao ex-senador Odacir Soares – seu arquiinimigo. Confundido com comunista que comia criancinhas, como se acreditava no apogeu da Guerra Fria, teve seu jornal empastelado pela Polícia Federal e seu corpo torturado nos porões da Ditadura Militar de 64. Exceto no livro “Brasil Nunca Mais”, sua memória anda meio perdida por aí, feito as almas penadas que perambulam no prédio da Unir-Centro, antigo Porto Velho Hotel.

E se muitos migrantes não sabem, saibam agora que tínhamos mesmo entre nós um maluquinho de deus chamado Morcego, cuja especialidade era fazer sexo com as mulheres em sono de morte, prostradas no necrotério do Hospital São José, hoje Policlínica da Polícia Militar. Tínhamos também a figura do Pacato, assim popularmente chamado o herói de guerra que andava irrepreensivelmente fardado, exibindo todas as condecorações militares ganhas por atos de heroísmo em batalha ou por bons serviços prestados às tropas de Duque de Caxias. Nossos curumins eram criativos, sim. Inspirados em Bacu, Meireles e Gainete, com o coco do tucumã fabricavam o salotex para praticar aquilo que os garotos paulistas chamavam de futebol de botão, enquanto denominávamos bombom o que diziam ser caramelo, e peteca o que eles pronunciavam bolinha de gude. Nas asas das casquetas vadias e dos papagaios empinados em céu de brigadeiro, criam ser ícaros travessos testando cerol com solução de bateria.

No discurso poético-teatral de Mado não poderia faltar o boi-bumbá de Catirina e Cazumbá, pai Francisco e diretor dos índios. Daí porque, durante o espetáculo, na presença do Levantador de Toada Sílvio Santos, ele posa de amo, cantarola toadas e remete a platéia aos tempos em que a pajelança cabocla reverenciava o Corre Campo, o boi Mimoso e o Caprichoso, dentre outros contrários famosos, ressaltando a matança como um dos pontos chaves daquele auto popular, bem diferente do hoje homérico festival do Parintins. E assim, entrelaçando personagens, locais e tradições, costumes e crendices que se perderam na poeira do tempo e do espaço, o poeta-ator dá o seu recado, aparentemente pregando no deserto, como um palhaço circense dando cambalhotas para cegos e contando piadas para surdos. Uma onda de imenso saudosismo memorialista permeia seu monólogo, suas falas estão impregnadas de nativismo, mas seu fazer teatral é honesto, autêntico e politicamente oportuno, ainda que por vezes seja propositalmente farsesco – o que não quer dizer absolutamente nada para quem bebeu na fonte libertária do “Teatro do Oprimido”, tendo como professor o mestre Augusto Boal. Fona, poeta Mado!!