O texto abaixo, recebido por e-mail e transcrito na íntegra, demonstra a indignação dos filhos da terra (nativos e adotivos) com a inclemente horda que volta e meia entrelaça-se em nosso meio, incultando-nos sua cultura enquanto alheia-se à local.

Faço minhas as palavras do amigo querido Serpinha (ou Bazinho, como muitos o chamam).

Acostumei com Porto Velho desde a infância, posto que aqui cheguei com meus onze anos. E aquela Porto Velho, aquele porto velho (ou do velho) trouxe-me de volta após concluir meus estudos.

A paixão por esta terra fez-me encontrar guarida nos braços da amada amante do então, do hoje e do porvir. Com ela gerei prole e desta prole vieram os netos que orgulham-me por terem nascido também aqui.

Porto Velho dos meus caminhos (e descaminhos) tantas vezes trilhados. Dos amigos, companheiros e camaradas. Porto Velho da Cachoeira, das corredeiras, do Cai n’Água. Dos Dourados, Piraibas, Pacus, Aracus, Bacus, Cuiu-cuiús… que alimentaram gerações e gerações. E, também dos candirús e das arraias.

Hoje a piraíba virou “filhote” e o dourado, em sua pequenez, deixou de ser alvo para as caldeiradas. Veio o “tambaqui de viveiro” que trouxe junto o tambacu, híbrido desenvolvido em outras paragens.

Porto Velho, do túnel que ligava a Catedral ao Madeirão. Alguém ainda lembra?

Do Morcego e dos morcegos.

Porto Velho da nossa memória. Porto Velho do amigo Serpinha.

A alma karipuna resistirá no mucururu!

Por Antônio Serpa do Amaral Filho

O encontro que fazemos semanalmente no Mercado Cultural, ao som de Ernesto Melo e a Fina Flor do Samba, tem sido um verdadeiro ungüento a aliviar as dores e amarguras, desespero e vazio de propósito existencial causados na alma dos nativos. O centro histórico de Porto Velho é a nossa Lapa Guaporé. Enquanto a poesia de Paulinho da Viola perfuma a atmosfera na voz de Toninho Tavernad, minhocas e não-minhocas interagem no caldeirão cultural que somos hoje – a Rosa Antropofágica da Amazônia. Gervásio, o único jogador do mundo a utilizar uma telha como caneleira, é freqüentador assíduo daquele espaço. O corredor da Calçada da Fama não pertence ao ritual de entretenimento dos minhocas, a cópia do antigo Mercado Municipal, sim. Ali, a saudade serpenteia como uma borboleta bêbada por entre os velhos e novos freqüentadores. Lampejos de memória trazem para a cena do bate-papo figuras como o Manelão, Ary Tupinambá Pena Pinheiro, Velho Esmite Bento de Melo, Moacir Mota, Chiquilito Erse, Paulo Queiroz, Gainete, João Barril, o lendário Velho Pimentel, Laio, Serginho, o terreiro do Samburucu e Chica Macaxeira, Bloco do Sol e Bloco da Chuva, Valdemar Cachorro, Norman Johnson e tantos outros personagens que já se foram desta pra melhor.

Até a maconha estragada que Rogério Weber fumava vira tema de crônica coloquial. Temem o não-ser, os minhocas. Aguardam que Confúcio Moura indique, pela velha fórmula de divisão do poder com os aliados, o cara que vai administrar os nossos bens materiais e imateriais, nossa memória e nossas produções artísticas, na Secel. Os fazedores de arte vão engolir a seco essa prática infame? E a Revolução Cultural? É revolução mesmo ou é peido de velha? Vamos chamar Luís Galvez Rodríguez de Aria, o Imperador do Acre, talvez ele traga homens e armas para dar suporte à insurreição!

Às vezes, quando bate mais forte e mais doída a dor de não-ser, corro para dar um abraço na catedral e no velho Colégio Dom Bosco, antes que o desespero me leve ao consultório psiquiátrico e seu rivotril. Às vezes adentro a nave sacra, mas apenas para observar o nosso passado cravado nos vitrais. Não rezo porque me falta a essência do credo, a fé. Sem ela, orar seria cultuar hipocrisia ao Senhor dos mundos.

O Velho Dionísio Xavier estava certo: somos mesmo filhos das ondas migratórias que, sucessivamente, cada uma a seu modo e intensidade, sacodem o eixo da nossa existência, numa sucessão nefasta de construção e desconstrução do nosso bio-ritmo, concentração e dispersão dos nossos anseios comuns, soerguimento e derrocada de horizontes existenciais, aglutinação e pulverização dos nossos costumes e valores, como se teimássemos em sobreviver numa parte de terra onde os cataclismos vêm e vão em ondas avassaladoras, tornando-nos reféns das nossas perdas, buscadores de cacos de nós mesmos, cacos espalhados aos quadrantes de nossa história. O tacacá da Izaura, no Mirante III, veio abaixo, fuzilado pelas ondas subterrâneas que emergem do rio Madeira, acossado pela construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio. Pimenta no olho dos outros é refresco de cupuaçu. Os usineiros sabem disso, Dona Izaura!

Nômades de nosso território nativo, somos garimpeiros faiscando fagulhas de identidade lançadas ao ar contextual como fuligem residual de um processo abrasador e triturador das referências tênues edificadas ao troar das hordas que, em cascatas históricas, lançaram âncoras neste noroeste brasileiro à cata de dias melhores para os seus.

Somos até muito normais e reprimidos. Deveríamos, pelas beberagens ingeridas durantes as travessias, sermos mais loucos e desatinados, aguerridos e tresloucados, cabanos e beligerantes. Quedamo-nos românticos e idealistas, humanistas e poéticos, espíritas e comunistas, ecléticos e acolhedores, beberrões e perdedores. Não temos um herói sequer, uma guerra ou uma revolta que fosse a entusiasmar as células à combustão das veias abertas para o nada. Alguns piraram de vez: a irmã do Aderbal, filho da Tereza do Buraco, Mildres, vive ao relento, jogada às traças, com a mente despanaviada pela mela, dormindo nas calçadas como uma cadela sem dono. Mas ela não está só: cada bairro tem sua tribo de miseráveis papudinhos.

O bairro do Triângulo é a nossa cara. Toneladas de pedra brita se debruçam sobre o beiradão, tomando-nos o contato com o barro, expondo, cotidianamente, uma obra surrealista aos olhos dos beradeiros, alienando o homem do contato com a terra e seu cheiro bom, retratando a imposição de quem tem o mando, descaracterizando o bucolismo, o amazonismo e o naturalismo ambiental do beiradão. Somos filhos de um tenentismo aluizista serviçal do getulismo totalitário e do coronelismo seringalista e personalista a dar substância econômica a uma atípica figura júris-político-administrativa, um Território Federal.  Os nossos possíveis heróis estão morrendo à míngua, despejados que foram do pódio porque ninguém lhes reconhece o mérito de terem prestado relevantes serviços à democracia mundial. A heróica brigada dos Soldados da Borracha é hoje um grupamento de desertores da esperança, mercenários da angústia e da dor, herdeiros caricatos dos Acordos de Washington. A única grande utopia que ousamos conceber, A República Socialista do Guaporé, estilhaçou-se na poeira de um furacão militaresco, que cassou o último dos moicanos pele-curta, Renato Medeiros, aglutinador dos descamisados, comunistas, socialistas, anarquistas, humanistas e sedentos de justiça de todas as raças – e hoje é peça de ficção de William Haverly. Esse foi o último delírio!

Pensávamos que Jerônimo Santana fosse uma bandeira, era uma falácia. Apostávamos que um filho nosso não fugiria à luta, e o Piana, entreguista, fisiologista e reservista das forças reacionárias, mostrou-nos o quanto estávamos equivocados. Era do mesmo quilate do suposto bandido-político morto, Olavo Pires. Construímos a esperança em torno da sigla PT, sendo o mandato da nativa Fátima Cleide fruto dessa semeadura, e hoje nos vemos órfãos da própria esperança inventada, essência derradeira a quedar-se na Caixa de Pandora. Restou-nos a caixa-prego, para onde mandávamos nossos contemporâneos nos idos da infância e da juventude! Todavia, não somos vítimas, somos produto social da roldana indiferente da História. Continuamos sujeitos fazedores de realidades, pensadores de mundo e idealizadores de amanhãs. A alma karipuna resistirá no mucururu, Paulinho Rodrigues!