É… quem acha pouco deve provar do tal remédio musical para os ouvidos. Altair “Tatá dos Anjos” dos Santos foi vítima. Mas, assim como ele, somos todos vítimas do consumismo desenfreado e leis  hipócritas que não protegem o cidadão de bem.

Bem que podia ser votada uma lei que limitasse os decibéis dos aparelhos sonoros automotivos.

Bem que podia também ser apresentada, votada e aprovada – tudo em regime de urgência – uma lei que protegesse nossa tão combalida língua-pátria, impedindo que neologismos insanos a corroessem tão às claras como o fazem as letras da maioria dos “funks” e “raps”.

Não sou – deixo bem claro – contra a arte musical. Sou músico, também e considero-me até certo ponto eclético. Mas, a bem da verdade, rapp pode até ser manifestação cultural, mas passa muito longe de ser expressão musical. E funk (que o brasileiro medíocre importou) talvez fique bem para a cultura estrangeira, mas para o Brasil, que tenta erguer-se diante das potências mundiais, cai muito mal. Perdoem-me os que pensam contrário. Respeito os pensamentos diferentes. Mas que é música de muito mau gosto, isso é.

Segue o texto do amigo Tatá.

 

 

 

 

 

A CARONA DA DESGRAÇA

 

Por Altair Santos (Tatá)

 

Amigos desculpem o mau jeito, o texto vai assim mesmo, na primeira pessoa. Pensem nos maus bocados que passei! Juro que vou começar a rever certos conceitos e comportamentos, serei mais paciente com o próximo, irei mais à missa no domingo, farei filantropia, mandarei flores até pra quem não conheço. Hoje, por volta das 14h, sem dúvida, vivi a pior meia hora desta minha jovem vida cinqüentenária. Acho que de tanto falar mal da antimúsica, criticar os modismos e apelos chulos empurrados cabeça adentro pela mídia do besteirol musical brasileiro, via TV, rádio e outrosmeios eis que, contra mim, despejou-se uma praga, tipo aquelas do Egito! Fui a uma reunião num local afastado do centro da cidade. Na volta, me foi oferecido uma gentil carona por um moço, o Adriano, filho de um conhecido. O rapaz é um animado universitário da cidade, que disse me deixaria no centro, próximo ao local de trabalho. De pronto agradeci, aceitei! Mal sabia esse amigo de vocês que aquilo era a desgraça sob encomenda, o verdadeiro inferno automotivo e musical. Ali, no interior do carro, lado a lado, eu e o jovem estudante, ao que me parece travestido de emissário do capeta, só pode ser! Entramos e o cara ligou a máquina e fez-se um grande e ensurdecedor estrondo, vrummm vrummm! Antes de sair puxou um assunto, perguntou umas três coisinhas e tascou: beleza Tatá, que bom te ver cara! Vou colocar uma musiquinha pra gente, você gosta né? Nem deu tempo de responder e fui tomado por um baita susto quando o som do carango vomitou contra a minha modesta caixa pensante, um pancadão daqueles de rachar o quengo em elevadíssimos decibéis. Era um misto de Mr Catra, Mc fulano, DJ beltrano, e ele lá do meu lado se sacudindo ao volante. E tome camaro amarelo, lek lek, dentre outras jóia raras!  O cara cantava junto repetindo as letras para sofrimento do meus tímpanos e desconforto da minha ali, já inquieta alma. O barulho era infernal! Começava então uma imensurável agonia auditiva, uma irresistível perturbação mental acompanhada de forte desassossego físico, uma sessão carona ornada por uma trilha dos infernos. O trânsito lento e complicado, não combinava com a atmosfera loucamente temperada, vivida no interior do veículo. Aquilo parece ter aguçado o jovem Adriano a recorrer às suas reservas de adrenalina e aditivar aquele infausto encontro meu com zoada sem limite, com o mau gosto sem régua. Pra não ter que baixar o volume do potente equipamento de som, o universitário se achando o tal, dizia, ou melhor, gritava pra mim num português que extermina a concordância, chuta pra longe o plural exagera em termologias em forma de gíria, evidenciando um dialeto ao qual sou ainda pouco conhecedor. E gritava ele: e essa aqui mano, o que tu acha? E mais essa, olha só essa outra é do “carai”, essa também é massa, a mulherada gosta! As mina pira! Uuhhhuuu!  A saraivada foi uma  overdose funk com o tal sertanejo universitário, uns forrós Segura Tatá, hoje é dia, “é nóis véi”, se tu quiser hoje nós sai por aí de noite pra vê as mina lá na Pinheiro e depois nas buate, dá pra gente pegar umas vadia e beijar muito na boca, vamo moleque lá tu vai se amarrá! A essa altura já atravessávamos a Av Jorge Teixeira quando, próximo ao clube botafogo e em meio ao contínuo embaraço do trânsito, um anjo do senhor me soprou na face a atitude derradeira de reação. Quase surtando de tanto desespero bradei, pára aqui vou descer! E ele sem tocar no volume do som gritou: Ok, beleza! Se quiser eu te espero maluco, tô com tempo! Agradeci com um aceno e, tendo o juízo em total plano de desordem, saí cambaleando, tentando ajustar a bússola da existência, reconhecer a cidade direito e rumar pra algum lugar onde pudesse acudir a mim mesmo. Caminhei uns 100 metros dobrei à direita, segui trôpego e sob efeito dos ecos daquelas batidas fortes e letras esquisitas na cabeça, brigando com a zonzeira rompi a extensa calçada dos fundos do botafogo e, na outra ponta, pra alívio e salvação, se me aparece um Oásis! Debaixo de dois frondosos jambeiros, o tradicional Bar do Bigode me acolheu, como em outrora! Acotovelei-me no balcão, respirei, fiz rápida reflexão de agradecimento a Deus por me manter de pé, embora combalido. Cumprimentei os convivas e, sem titubear, pedi uma e depois mais uma… Meia dúzia de cervejas depois, fiz questão de andar debaixo do sol causticante até minha casa, feliz, forte, vivo! Sai pra lá coisa ruim, que hoje é sexta-feira!

 

O autor é músico e produtor cultural

tatadeportovelho@gmail.com