SECEL AGONIZA

(o sofrido testamento dos desvalidos)

Por: Altair Santos – (Tatá)

TATÁ
Há quem ame pessoas e animais, flores e folhas, sol e chuva. Há quem ame! Há quem ame estrelas e a lua, vento e pássaros, asas e aviões, há quem ame! Há quem ame riachos, igarapés, rios e mares. Há quem ame asfalto, muros e calçadas, prédios e paredes, há quem ame! E há quem não ame nada e nem de nada goste, e nem de nada queira saber, até porque de nada e sobre nada sabe, muito menos de cultura e seus nobres valores e sua importância ao cidadão e a cidadania! Assim se nos parece e ecoa o Governo do Estado, mórbido e ensimesmado, inerte feito um pote no canto.

Oco, o executivo de Rondônia se pinta e se nos apresenta com a mais empalidecida máscara gestora de um governo atônito, sem corpo, sem vísceras, sem alma e que exibe a mais desfigurada face de governismo tosco que por aqui se viu e ainda se vê. Indeciso, o governo quando resolve marchar, mesmo desbotado, afoga almas, naufraga canoas e batelões, descarrila vagões, invade a noite desassossegando sonos e sonhos.

Com praticamente setenta e cinco por cento de seu mandato cumprido, o governo porta-se como um novato quando chegou de mala na mão, sem saber atravessar a rua, nem pra onde ir, que rumo tomar. Assim não conseguiu ler, interpretar e agir com maior desenvoltura em favor do estado e seu povo. Não conheceu a sua grande demanda, a sua vasta diversidade e potencialidade produtiva, nem tampouco viu a tez da sua rica pluralidade étnica.

Já avistando o crepúsculo do jogo, desespera-se com o badalo do sino final que faz bulir suas trêmulas e dilaceradas carnes governamentais. Com o nó na garganta e vendo esvair por entre os dedos, o mel da reeleição, o governo apressa-se e age em desmedidos atos e se desdiz, embalado na rede do contra-senso.

Feito serpente cega na areia, a redenção tardia do governo viria no bote certeiro de uma reforma administrativa que tem mais de desastre do que de equilíbrio. Ao propor a extinção de secretarias e cargos e reduzir salários, o executivo mostrou-se um simplório-óbvio que não ousou, não feriu e não desafiou o meramente convencional. O tecnicista “staff confuciano” agiu em orientação e aconselhamento, sugerindo uma degola como luz no fim do túnel sem, nem mesmo, saber onde é o túnel.

No roll das extinções, consta como agonizante a pobre, amarrotada e espezinhada SECEL – Secretaria de Estado da Cultura, Esporte e Lazer, cuja existência não poderia nunca ser posta em risco, para não dissociar-se dos novos enunciados culturais nacionais, para médio prazo, com a implantação definitiva dos sistemas nacional, estaduais e municipais de cultura.

Na régua do pacto federativo o Sistema Nacional de Cultura é uma cadeia de relação proposta pelo Governo Federal via MINC para, dentre outras, romper e transformar o velho modus operandi da cultura brasileira, tirando-a da condição de política de governo e elevando-a ao plano de política de Estado.

Ter os estados e municípios legalmente consorciados ao SNC, garante aos entes federativos participar e concorrer nos editais nacionais, receber programas de capacitação e intercâmbio, pleitear recursos para a cultura. No mesmo diapasão encontra-se o esporte que já dá sinais de organização do seu sistema nacional, também pautando o segmento, para o plano de política de Estado e vislumbrando melhores condições de atender as suas importantes demandas.

A SECEL indo amargar num dos corredores da SEDUC, teria muito pouca chance de vingar dentro dessa nova realidade brasileira, haja vista a secretaria de educação não ter consigo essas especificidades e pertinências e, tampouco, um departamento de cultura ou superintendência, ali dentro, não agiria célere e diligente aos encaminhamentos que essa política requer, por falta de autonomia e independência.

Assim como qualquer secretaria de estado ou de município, a SECEL nunca fora aquele braço público que acolhesse em plenitude os nossos pleitos e realizasse nossos sonhos culturais ou esportivos. Entretanto, vê-la a ponto de perecer, sem que o seu mantenedor, o governo do estado, sequer injetasse em sua existência formas e meios de capacitá-la, provê-la e potencializá-la pra se fazer forte e atuante no extenso mapa territorial de 53 municípios de Rondônia, é jogar fora e negar ao universo cultural daqui, a sua bandeira de insistência e luta em ter e manter uma secretaria que, afinada aos esperançosos programas nacionais constantes do SNC, rumaria, senão à redenção cultural, ao menos trilharia a esse horizonte.

Intriga-nos o fato de que na hora da ceifa, primeiro os menores, os mais fracos, os desvalidos ou deserdados de uma política anêmica, sobem ao cadafalso. Secretarias potencialmente muito mais abastadas, em renúncia a certos programas e projetos bisonhos, não mais que meia dúzia desses, já seria o suficiente para o Governo exercer expressivo provimento aos interesses culturais e esportivos.

Lá no alto do patíbulo em exposição ao momento letal, a SECEL pelos seus possíveis órfãos, os artistas, agentes e produtores culturais de todo o Estado de Rondônia, agoniza lançando seu apelo derradeiro por uma urgente propedêutica governamental que estude sua causa e viabilize encaminhamentos que a mantenham viva. Sã e salva para construir um futuro cultural e esportivo nas cores e proporções do merecimento do povo de Rondônia, a SECEL teria fôlego moral pra continuar a sua caminhada.

Por hora cabe-nos o vigente despontamento que, há dias, vimos propalando: “tem gente priorizando pensar com o volume dos miolos sem, no entanto, valorizar a riqueza e a capacidade do cérebro!”
Salvem a SECEL, antes que a mandem pro céu, ou então pro beleléu!

tatadeportovelho@gmail.com