A FLOR E A BAIONETA

 

Por Artur Quintela

Tenho acompanhado de longe – sentindo-me perto – os movimentos populares que explodiram por todo o país neste ano.

E vejo-me novamente, jovem, com sonhos dourados, a gritar pelas ruas do meu Brasil “Abaixo a Ditadura”.

 

ABAIXO A DITADURA

Alguns podem até achar que é demagogia, mas falo “Meu Brasil”, com orgulho.

 

Ajudei, contribuí, lutei por uma democracia. Por isso me alarmo quando vejo os civis de hoje querendo impor censura, mandando as tropas às ruas para escorraçar o povo – legítimo possuidor da nação brasileira.

 

Lutei, corri, atirei pedras e paus… gritei a plenos pulmões que queria LIBERDADE!!!

Liberdade para falar, para estudar, para trabalhar, para ser eu, enfim.

 

E, quando pensava que tinha conseguido realizar o tão almejado sonho, vejo uma corja de delinquentes infiltrados nos três poderes de minha Nação, vilipendiando seu erário e desrespeitando seus símbolos.

 

A FLOR CONTRA A BAIONETA

Ao combater o canhão – como bem disse Vandré – oferecíamos, primeiro, flores e palavras. Nunca saíamos de casa pensando em matar ou ferir ninguém.

 

Vimos nossa mocidade ser trucidada pelo AI-5. Nossos correligionários desaparecendo – como bem o disse Gil.

 

Mas conseguimos colocar o civil no poder e escrever uma Constituição que “parecia a cara do povo”.

 

A sequencia, entretanto, foi pior que o soneto inicial.

 

Não vi, sem soube de nenhum presidente militar que saísse do governo rico.

Da mesma forma que não vi e nem soube de nenhum civil que deixasse o governo apenas com o patrimônio que tinha antes. Os civis enriqueceram. O povo, não.

 

Foi esse o Brasil que ajudei a construir? Não!!! Decididamente, não!!!

Não foi por esse Brasil que Edson morreu. Não foi por esse Brasil que Palmeira gritou na Presidente Vargas. Não foi por esse Brasil que fizemos a Marcha dos Cem Mil. Não foi por esse Brasil que ladeei José Dirceu, Nara, Gil, Caetano, Marieta e tantos outros. Não, não foi por esse Brasil que marchei. Não foi por esse Brasil que daria (sim) a vida.

 

Por isso não aceito o Brasil de hoje, de novo, com armas contra seu povo. Não aceito o soldado que aprende o que lhes ensinam nos quartéis – “antigas lições, de morrer pela pátria e viver sem razões”.

 

Se hoje não tenho mais a disposição e o vigor físico da juventude, nem por isso me calo. Ainda que seja a última cartada da vida, ela continua sendo do MEU BRASIL!

 

“Podem me prender,

Podem me bater,

Podem até deixar-me sem comer

Que eu não mudo de opinião”!

 

 N.R. As fotos foram colhidas da internet. Motivo: Não tinha máquina fotográfica pessoal, na época.