A SEPARAÇÃO DE VIRA BICHO E LADO AVESSO 

A GUERRA DOS QUASE NADA

Por: Altair Santos (Tatá)

Moradores do Bairro Nova Porto Velho nos últimos lustros da década de 80, Genivaldo e Alice casados havia 15 anos, de há muito vinham mastigando o indesejável e travoso fruto de uma relação complicada, à beira do fim. Com brigas pela manhã, tarde e noite e quando mais o espaço das 24 horas do dia assim o permitisse ou os contendores o quisessem, o matrimônio acusava um futuro nada sólido. E assim, envolto em freqüentes conflitos, ardendo nas labaredas do ciúme e se perdendo nas brasas das acusações de parte a parte, abria-se à frente do casal o corredor do evidente desenlace, o naufrágio, a separação inevitável, em breve as alianças seriam arremessadas ao nada.

Genivaldo, alagoano de Arapiraca, um faz tudo da vida, virado como ele só, autodidata em vários ramos de atividade, uma vez era eletricista, outra vez pedreiro e pintor, encanador, lavador de carro e auxiliar de mecânico. De quando em vez também tirava uma de marceneiro, ajudando na fabricação de móveis. Ao seu currículo somava também a fama de bebedor de cachaça, rum, conhaque, e outras bebidas fortes.

Nas horas de folga, arranhava um desafinado violão e com sua voz rouca e destoada, cantava os clássicos de Amado Batista, Carlos Alexandre e Alípio Martins, os seus artistas e bregueiros preferidos, seus ídolos. Na maioria das vezes o show se dava no terreiro de casa com o moço prá lá de deus me livre, de tanto ingerir cachaça em doses cavalares. De tão feio, os vizinhos lhe presentearam com o carinhoso e caprichado pseudônimo de “vira bicho” tratativa à qual Genivaldo, sem nenhuma mágoa, atendia e, às vezes, até caçoava de si mesmo, divertindo-se com o seu desafortunado padrão estético, dizendo ter nascido num dia mês e ano em que a beleza resolveu tirar férias.

Alice, paraense de Abaetetuba, do lar, nada prendada e nem afeita aos afazeres domésticos, passava o dia envolvida nos cuidados pessoais peregrinando nos salões da redondeza, tentando fazer um “ctrl c – ctrl v” pra colar em si a sonhada beleza e corrigir o que a natureza caprichosamente deixou de fazer. Alice perdia as horas entre retoques e mais retoques com cremes no rosto, tinta nos cabelos, esmalte nas unhas e saltos tipo Anabela, mais altos que um prédio, além de roupas curtíssimas e extravagantes, dentre outros badulaques. A todo custo tentava minimizar o impacto da deficiência estética, a ausência de beleza, propriamente dito.

No mesmo diapasão, em pleno seio comunitário, Alice fora elegantemente apelidada de “Lado Avesso”, tratamento obviamente endereçado e justificado em reconhecimento ao seu esquisito design, ou seja, seu plano estético despido de acabamento, onde parece ter faltado os caprichos derradeiros, as pinceladas finais. Quando atiçada pela indigesta tratativa ficava enfurecida a ponto de partir pra briga, ir às vias de fato. O que faltava de beleza em “Lado Avesso”, lhe sobrava em brabeza, valentia!

Numa inseparável bolsa, carregava pó compacto, sombra, rouge, batom, lápis pros olhos e perfume da Bolívia dentre outros embelezáveis apetrechos. O kit era reforçado com uma singela faca, digamos, uma semi peixeira caprichosamente afiada, camuflada numa improvisada bainha feita de absorvente, só pra disfarçar.

Certa vez, em alta madrugada, chamaram a polícia para acalmar os ânimos de um dos tantos entreveros dela com o marido, em plena via pública. O texto de ambos, proferido em alta voz ,era repleto de ofensas e impropérios, exibia a predominância de um vocabulário rico em palavrões e termos não recomendáveis, ainda que tarde da noite, fora hora!

Enquanto se dava o embate vernacular, eram recíprocas as promessas fatais de que um ou outro não amanheceria vivo pra contar a história. Nessa ocasião, no calor do bate-boca, Vira Bicho ao ver as luzes da viatura evadiu-se a tempo enquanto Lado Avesso, em vacilo, foi detida pelos meganhas.

Revistando a bolsa encontraram a afiada “viana” e a interrogaram: a senhora sabia que é crime portar arma branca? Sutil como uma parede, suave como um rochedo, Lado Avesso, procedeu em resposta seca, dura, ríspida e bradou: isso não é arma branca não, viu seu guarda! Eu não sei se o senhor tá vendo mais isso aí é uma faca e ela é brilhosa, serve pra botar cabra safado pra correr, porque se ele não correr, eu arrio os fatos dele! O policial mesmo preparado e dono de um corpanzil de amedrontar trator de esteira, arregalou os olhos e, assustado, pensou estar diante da reencarnação de Maria Bonita, a destemida mulher de Virgulino Ferreira, o Lampião, rei do cangaço!

Apelando pra não ser presa, tentou em vão, fazer um charme implorando pra que a deixassem ir pra casa, sem, contudo, deixar de pedir aos homens da lei que saíssem atrás do Vira Bicho: prendam aquele maldito, ele é que quer me matar! Agora se vocês não derem um jeito nele me avisem que eu dou! Lado Avesso realmente era um poço de desaforos, uma jazida de ignorância, uma usina de valentia. A defesa, sem embasamento e esmero qualquer, acabou convencendo os policiais que a liberaram, mas ficaram com a faca, o que gerou novo e imediato protesto: “veja bem seu guarda, essa faca também serve pra cortar comida lá em casa!” Quer dizer afora o aparelho ser uma arma para os momentos de conflito, também tinha a função de utensílio doméstico.

Vira bicho e lado avesso, tinham o hábito de ir ao forró. Quando não, aproveitavam os atrativos dos botecos das imediações e se esbaldavam em extensas sessões de dança e namoricos, até que em meio ao quilométrico cerimonial de bebedeira e dança, ficassem “chirrados”, invocados, prontos pra briga.

Dançando o casal era um show à parte. Ele exímio nos movimentos, deslizava macio por entre as mesas e cadeiras, fazia piruetas, por essas era arremetido ao plano de um Fred Astaire tupiniquim. Dançar pra ele era tão simples o quanto ser feio. Ela em movimentos sedutores com requebros de ombros e rebolados insinuantes lançava olhares venenosos para a boquiaberta platéia masculina que lhe admirava os movimentos e se escandalizava com tamanha feiúra.

Os desentendimentos sempre se iniciavam após muitos rodopios no salão, quando o casal servia de se digladiar em público, começando no terreiro de casa indo terminar nos bares, calçadas e ruas das proximidades sempre com um clássico desfecho de fazer inveja a esses lutadores fortões da atualidade.

Numa festa de carnaval nas proximidades de casa, Lado Avesso veio a saber que Vira Bicho se embandeirava jogando galanteios pra cima de uma certa Rosana, acreana recém chegada, dona de formas generosas e outros predicativos físicos. Sem contar até três, lado Avesso passou em casa, pegou a peixeira, e saiu rumo ao evento de momo, onde o seu par dançava e fartamente bebia sob o olhar meia taça com que a oferecida e já quase seduzida Rosana encarava o folião.

A intrusa bem sabia da fama de valente que tinha Lado Avesso, mas trazia consigo, lá das terras de Chico Mendes a sua fama de corajosa e boa de briga. Sem demora a ofendida chegou ao local festivo, fumegando pelas ventas. Porém antes de agir, em defesa de sua honra e em destruição ao safadismo dos dois, foi direto ao balcão e com a faca já desembainhada do absorvente, pediu uma dose da abençoada, mandou pros peitos, correu até o aparelho de som que fora silenciado com um chute e saltou pro meio do salão, pra anunciar o seu intento.

O olhar encolerizado de Lado Avesso a todos assustou, deixando os presentes prostrados, perplexos, trêmulos e medrosos. A coisa piorou quando a transtornada feia chutou duas cadeiras pro alto, quebrou uma garrafa num balaustre e armou-se, na mão oposta à da faca, com o gargalo pontiagudo. Estava feito o cenário da desgraça, muitos dos presentes chegaram a temer pelo fim do infiel Vira Bicho e da emergente Rosana, a sirigaita da discórdia. Ao que parecia ambos teriam ali seus destinos tragicamente selados.

Aos gritos, a descontrolada feia proferiu: eu vim pra matar dois imprestáveis duma figa, um é o escroto desse Vira Bicho dos infernos e outro é essa puta acreana, ela vai ver como é que se faz o serviço! Lado Avesso ao que desferia seus verbetes de ofensa, furiosa e detidamente fitava Rosana, sua desafeta, a bola da vez, o alvo de sua ira! Desarmada e em desvantagem, Rosana garimpou em si uma salvadora reação de coragem: se você é mulher de verdade me enfrente de mãos limpas sua medrosa, feia todos sabem que tu és, quero ver se tens é coragem, vamos lá fora, pro meio do terreiro! Aquilo reverberou como uma afronta, era um desafio que, não aceito, abalaria a moral da enfezada e incontrolável Alice, a arranharia a sua fama. A feia de pronto topou a parada. Pois eu vou!

Nisso Rosana pulou a escada tirou a blusa e só de sutiã, abriu os braços chamando a adversária pro duelo limpo. Lado Avesso em desabalada carreira partiu pra cima, mas encontrou daquela vez, uma oponente de categoria. Rosana, demonstrando ser do ramo, desferiu uma competente seção de socos e pontapés, abrindo larga vantagem no corpo a corpo. Num dos golpes acertou em cheio o nariz de lado Avesso que sangrou sem contenção. Aquilo provocou a intervenção imediata de Vira Bicho que num salto pôs entre as duas e, rolando no chão, com redobrado esforço, conseguiu apartá-las.

Sentindo que a sucessão do entrevero prometia mais, Rosana nem buscou suas vestes e, com os peitos ao vento, tratou de sumir na madrugada escura rumo a algum refúgio. Aos que ficaram, coube presenciar o grand finalle de quebra pau entre Lado Avesso e Vira Bicho.

O tumulto foi tão grande que os dois foram em discussão e trocas de bofetes, até o portão de casa. Lá chegando, com o dia já amanhecendo, Vira Bicho disse: quer saber, vou embora, vou pegar o que é meu e vou sumir daqui e da tua vida! Entrou na casa encheu uma sacola com roupas e deixou no portão. Voltou dentro de casa e quando nem bem se espera, ele sai puxando a geladeira e leva até a porta do comércio da frente. Lá vendeu com preço promocional ao dono da taberna.

Vendo aquilo, Lado Avesso tratou de entrar em cena: também vou embora, correu dentro de casa e exibindo força hercúlea arrastou o fogão, buscou o sofá, a cama, o rádio e o liquidificador. Foi no vizinho ofereceu com atraente e irrecusável preço. Vendeu na hora! Daí em diante sucedeu-se um entra e sai frenético dos vendedores de móveis e utensílios domésticos. Em menos uma hora, os bens todos foram negociados e os dois sumiram, um pra cada lado, contando o faturamento.

Durante três dias a comunidade sequer soube do paradeiro do casal. No quarto dia, como que combinado, os dois aparecem na área e com o que sobrou das bem sucedidas vendas, foram civilizadamente conversar no boteco, como nunca se vira. Depois marcharam pelas imediações tentando reaver seus pertences, mas já era tarde. Nesse mesmo dia, antes do entardecer, conseguiram vender a casa de três cômodos e depois, entrar num táxi rumo estação rodoviária. Pelo taxista mandaram recado aos amigos e vizinhos dizendo que iam resolver o resto das pendengas noutra cidade.

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