Tatá (Altair Santos) não nos surpreende com facilidade, haja vista a cidade inteira conhecer seu talento para escrever  e retirar das mais estranhas situações algo lúdico, lírico, ou simplesmente divertido.

Mas desta vez, como conheço bem Heitor Almeida, o notável criador, produtor e diretor da Seresta Cultural, confesso que ele – Tatá – me pregou uma peça.

Juro que pensei num quebra-quebra qualquer na nossa querida Quinta da Seresta – não necessariamente envolvendo Heitor.

Leia o texto. Veja aí que a fama de Tatá não é de graça. Ele faz por merecer.

 

 

PINICO PRAS CABEÇAS

OU FRALDAS PRAS ANDORINHAS

 

Por: Altair Santos (Tatá)

 

Andorinhas pousadas para descanso e sono, durante imigração.

Andorinhas pousadas para descanso e sono, durante imigração.

 

O que adiante lavramos, é uma saia justa em que se meteu o nosso dileto amigo Heitor Almeida, o coordenador da Seresta do Mercado Cultural. Na última quinta-feira no pós-aniversário de Porto Velho, tudo corria tranquilamente com os seresteiros e românticos em êxtase festivo, no frescor da noite, embevecidos ao som que emanava dos abençoados gogós dos canoros artistas em ação.

 

Até houvemos de dar uma passadinha por lá, pra umas três ou quatro latas de cerveja e apreciar um pouco o movimento. De um canto a tudo assistíamos e podemos atestar que o evento transcorria as mil com o Heitor anunciando a plêiade musical que habitaria a cena de então, pra deleite dos notívagos locais. Confessamos ser ali, a região central, um lugar mágico, agradável e propício para o lazer cultural e entretenimento.

 

Nesses locais de eventos em espaço aberto ao público, os organizadores quase sempre se vêem às voltas com problemas de diferentes ordens, senão vejamos: o músico que atrasa, o som que não funciona, a luz da praça que apaga, o transformador que dá pane, os bêbados chatos que são aos muitos, os moradores de rua que aprontam todas, a chuva inesperada e outros fatores e ou fenômenos que, ao chocar com aquela realidade, soam como algo sobrenatural. Senão isso, ao menos os mais improváveis possíveis e por tal, indesejáveis!

 

Pois bem, ao final da seresta o Heitor puxa um banco e acotovela-se ao balcão do Café com Arte pra tomar aquela revigorante, providencial, terapêutica, cultural, educacional e fundamental cerveja, após uma noite de exaustivo trabalho. O coordenador dos boêmios senta-se com pose e ar de missão cumprida e, com voz de suficiência, pede uma cerveja a qual, sem meio termo trata de abrir e de imediato mandá-la pros peitos, com merecimento.

 

 

 

Em ritual ao saboreio da espumosa e gelada cerva, o Heitor respirava fundo e espantava o cansaço quando, pra seu desassossego, ao seu lado, encosta um dos tantos senhores presentes ao local, que lá fora curtir a inebriante seresta. Com cara de poucos amigos, o visitante foi direto ao assunto: olha aqui meu chapa, eu estou muito puto com você viu, puto mesmo! Comigo, responde o Heitor, mas o que eu lhe fiz?  Abruptamente o visitante já denunciando ser da laia de seu Lunga, aquele folclórico e afamado grosseiro por natureza, interrompe e retoma: isso não é coisa que se faça rapaz, é uma falta de respeito, como é que você realiza um evento de seresta num lugar escroto e seboso desses onde as andorinhas vem aqui só pra cagar nas pessoas! Veja como está a minha cabeça, minha camisa, a minha calça! Veja só, veja só! E agora como é que fica?

 

O bicho pegou, a temperatura subiu! O linho, antes impecavelmente engomado, perdera a beleza ao ser alvejado pelas inocentes andorinhas. Os respingos denunciavam que o cara parecia mesmo ter sido escolhido pra sanitário de passarinho, daí o seu enfezamento e busca por explicação.

 

Perplexo e estupefato o Heitor, em avançada madrugada, se fez inerte, mudo, a cerveja engasgou, fez caroço na goela e não desceu. Agora ele era ali um acuado, um incapaz instantâneo diante da inusitada abordagem, o fez fator surpresa o fez impotente e não o permitiu viajar em reflexão pra safar-se com qualquer argumento ou desculpa. Queria ele, naquele ato, ser um aparelho e receber do além uma mensagem, ou nele baixar uma entidade, um santo, um cabôco que o fizesse avistar uma saída. E se perguntava em silêncio: O que será de você, Heitor? O tema em discussão, àquela altura do campeonato, exigiria do inquirido um posicionamento de responsa, o interlocutor estava ali sisudo, à sua frente, impaciente, esperando uma consideração plausível sobre o sinistro.

 

Não contava o produtor cultural e percussionista Heitor Almeida, que as andorinhas que nessa época do ano saem da Patagônia Argentina rumo ao Canadá no hemisfério norte, cortam o continente, passam por Porto Velho e, aqui, fazem suas providenciais paradas, fossem justo naquela noite, fazer ponto de sossego nos galhos das árvores da Praça Getúlio Vargas, ao som da seresta e espalhar merda pra cima do seu público.

 

Os segundos viraram eternidade e o Heitor se viu nu, desprovido, um terráqueo perdido na galáxia da fisiologia passarinheira. Como tratar sobre a ciência e atitude fecal dos passarinhos? Como sugerir uma rápida assepsia e tirar boêmio daquela situação desconfortável e devolver-lhe a paz? No seu interior, o Heitor se remoia com um trecho da música Lama (de Lupicínio Rodrigues) Quem és tu? Quem fostes tu? Não és nada!!! Isso mesmo, ele não era nada, já que nem de passarinhos, andorinhas no caso, ele sabia. O jeito foi jogar um lero-lero, um caô pra cima do seu visitante, assim: escute aqui meu amigo, eu não posso fazer nada diante disso, a situação é por demais delicada eu sei, mas me diga como que eu vou controlar essa revoada, a não ser que eu bote pinico nas cabeças de vocês e fraldas descartáveis na bunda das andorinhas! Pode ser assim?

 

Fez-se um breve silêncio, a situação foi revertida! O cara com semblante incrédulo, era agora um homem abatido, vencido e jogado à lona no último round. Antes que a coisa piorasse, ele arregalou os olhos e sem responder e nem despedir-se, deu as costas e sumiu na madrugada.

 

Entre aliviado e atônito, o Heitor ao ver-se livre daquela sai justa, resmungou dizendo: isso só pode ser olho gordo, mandinga, urucubaca, quebranto que uns e outros (e não revelou quem), andam jogando pra cima de mim e da seresta!   

 

tatadeportovelho@gmail.com