O VALOR DA AMIZADE – SERPINHA

Por Artur Quintela

 

Quando uma pessoa se faz amiga de outra, coloca-a dentro do coração. E de lá não a tira mais. Deixa perpetuar-se, como se parte de si próprio fizesse.

 

Alguns amigos demoram mais a tornar-se donos do coração. Já outros – que chamo de anjos – chegam voando e não precisam subir os degraus da amizade para serem tão importantes.

 

No período de cheia do Rio Madeira tive minha casa, escritório e outro imóvel – à época alugado para terceiros – fortemente atingidos pelas águas. Viver um pesadelo daquele tipo era inimaginável para mim. Ano passado fizera uma oração, agradecendo a Deus por ter escolhido um lugar tão bom para minha família residir e viver. Longe de desmoronamentos, não sujeitos a cheias pluviais repentinas, muito menos alagações. Dista mais de quinhentos metros da margem do Madeira.

 

Entretanto, o que não era esperado, o que julgávamos impossível, aconteceu. E tive que sair às pressas porquanto, embora informassem que as águas subiam dezessete centímetros por dia, houve vez de superar os vinte e cinco. E período em que, em quatro horas, apenas, o nível subiu quinze centímetros. Afirmo porque fiz medições desde que a água chegou às bueiras das cercanias. Elaborei uma régua e diariamente realizava medições. Várias delas, no final.

 

Perdi alguns móveis, eletroeletrônicos… mas principalmente, perdi a dignidade. Sempre trabalhei (comecei aos sete anos) e provi minha casa de recursos necessários à manutenção da ordem familiar. E, de repente, fiquei sem meu ambiente de labor diário, sem condições de sustentar a família.

 

Foi naquele momento que pude ver o que tinha produzido em minha vida pregressa. O amor, a compreensão, a mão amiga dos familiares, parentes e amigos, fizeram-me forte. Fizeram-me entender que não estava só. Sobraram-me momentos de alegria. Parecia não haver cheia. Acomodei-me em imóvel de parentes. Chegaram-me alimentos. Valores foram depositados para suprir as necessidades mais prementes. Se, por meu lado, deixei de comprar “aquela cervejinha”, por outro me chegavam os familiares e amigos e diziam “não vamos deixar a peteca cair”.

 

Certo… Irão dizer alguns que família é para se unir nessas horas e superar as dificuldades. E amigos também, ora.

 

Pois é o que mais vale. Os amigos chegaram-me de montão. Vi que minha vida tinha sido voltada para formar amigos fortes e sua força fazia-me forte também.

 

A todos eles deixei meu agradecimento. Mesmo àqueles que, de longe, apenas mandavam-me palavras de conforto e solidariedade. Eram tão importantes quanto os próximos.

 

E, hoje, pus-me a refletir. Em várias vezes de nossas vidas nos deparamos com dificuldades. E, nessas ocasiões, eles – os amigos – surgem como anjos. Anjos protetores.

 

Em um desses momentos – triste demais – tive uma de minha prole acometida por doença em um período muito difícil. Estávamos ambos – eu e minha esposa – desempregados. E ver uma filha com câncer, já é um suplício. Sem condições de tratamento na cidade, é demais.

 

Foi naquele tempo que uma amizade de infância reapareceu em minha vida. Já com os cabelos teimando em abandoná-lo, surgiu entre a névoa como luz e buscou a solução que o Excelso Criador lhe permitia no momento.

 

Talvez ele mesmo não tenha percebido a grandeza de seu gesto naquela ocasião. Talvez, não! Com certeza não percebeu, tamanha é a grandeza de espírito e generosidade que tem.

 

Muita gente talvez nem entenda o “porquê” desse depoimento. Acontece que essa pessoa passou a integrar nossa família, mesmo sem pisar em nossa casa. É importante que se mantenha viva a memória de um ato simples para ele e tão importante para mim.

 

Antonio Serpa do Amaral Filho – que conheci e trato por Serpinha, e atualmente é conhecido por demais no meio cultural como Bazinho – é essa figura de coração enorme que poucos conhecem tão bem.

 

Talvez a simplicidade do seu viver, a humildade – mesmo sendo filho de um dos melhores (há quem diga que foi o melhor) prefeitos de nossa capital – sejam qualidades que não lhe permitem orgulhar-se, muito menos recordar-se de atitudes tão bonitas.

 

Serpinha viu a dificuldade, a lentidão, dos processos jurídicos. Sentou-me à garupa de sua moto e, em menos de dez minutos havia conseguido a liberação da parcela do FGTS retida em dos planos governamentais. Não sabia. Não perguntou… Mas aquele valor seria utilizado para a viagem de minha filha a Manaus, a fim de realizar tratamento do câncer que a afligia.

 

Assim é Serpinha. Simples, bondoso, carinhoso… e tantos bons adjetivos mais que nem Aurélio Buarque de Holanda conseguiria verbetar todos.

 

Obrigado, Serpinha. Obrigado, Bazinho. Obrigado Antonio Serpa do Amaral Filho… por ser MEU AMIGO!

 

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